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O naufrágio do etanol de cana é a maior vergonha do Brasil na Rio + 20, que começa Hoje

Rio + 20
A Rio+20 acontecerá a partir de amanhã, no Rio: bom momento para criar o movimento “Veta Gasolina, Presidente Dilma”? (Foto: Valter Campanato / ABr)


Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, a Rio+20 será realizada a partir de amanhã, dia 13, até o dia 22 de junho, no Rio de Janeiro. A Rio+20 é assim conhecida porque marca os vinte anos de realização da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92).
A propósito, publico artigo de Marcos Fava Neves, professor titular de planejamento e estratégia na Faculdade de Economia e Administração da USP (Campus Ribeirão Preto), consultor e autor de livros sobre a indústria sucro-alcooleira.
O NAUFRÁGIO DO ETANOL DE CANA É A MAIOR VERGONHA DO BRASIL NA RIO+20
Um dos nossos negócios mais promissores, o sucro-energético, vem naufragando nos últimos anos, numa tragédia amplamente anunciada, com visíveis prejuízos à sociedade brasileira. Aqui não trarei os números existentes para todas estas colocações, mas os fatos que levaram ao naufrágio.
A cana foi reconhecida por cientistas como uma das plantas mais aptas para transformar a energia do sol em energia renovável. De seu processamento gera-se o açúcar, o etanol, a eletricidade, o plástico, além de muitos outros produtos. Via engenharia genética de levedura, gera-se o diesel, o querosene e a gasolina, tudo renovável para a demandante sociedade mundial. Este setor energético traz poder e conforto ao Brasil, milhões de empregos, grandes exportações e reduz importações, num claro beneficio à sociedade.
Grandes investimentos foram feitos por empresas de Petróleo, tradings americanas, europeias e asiáticas, cooperativas de produtores agrícolas franceses, grupos nacionais, entre outros que acreditaram na cana e no etanol. Apesar de fundamentos fortemente favoráveis, hoje estes ativos não apresentam rentabilidade, o setor não cresce mais e investidores estão arrumando as malas, o que gera um prejuízo, também de imagem e credibilidade.
A falta de rentabilidade é consequência de preços não remuneradores e custos de produção elevados, advindas de três conjuntos de fatores. Os primeiros dois, ineficiências do setor produtivo e fatores de mercado (principalmente os preços internacionais do açúcar) têm um terço de responsabilidade e serão tema de outro artigo. O terceiro, com dois terços de responsabilidade, é a equivocada política do governo brasileiro, principalmente o federal.

Usina de Etanol
Usina de etanol: uma única empresa de São Paulo tem 40 delas para vender, sinal de um setor sem rumo (Foto: Lia Lubambo / Exame.com)


Erros do governo — e o que poderia fazer imediatamente
Exigências e ineficiências do governo geraram sensíveis aumentos de custos, o etanol de cana recebe quase o mesmo elevado tributo que a poluente gasolina e a energia elétrica limpa e renovável advinda da cana tem a mesma falta de reconhecimento. Com isto, o governo não privilegia fontes renováveis e limpas.
O governo controla o preço da gasolina e coloca um teto no preço do etanol. É um claro processo de dumping feito pela Petrobras, obrigada a importar gasolina e vender no mercado interno a um preço menor que o pago, com prejuízo à empresa, à seus acionistas e ao setor de cana, onde também é acionista.
Duas rápidas ações do governo, que vêm sendo solicitadas há anos, trariam efeito imediato: um ligeiro aumento no preço da gasolina e uma redução tributária do etanol e da eletricidade da cana.
E nos tornamos compradores de álcool dos EUA!
Ao mesmo tempo, nos EUA, o programa de combustíveis renováveis usando o etanol de milho, visivelmente menos competitivo que o etanol de cana, cumpriu o seu papel. Lá existe uma política pública clara, estratégica e bem desenhada.
Ganhou a sociedade americana, que com o etanol de milho, gerou trabalho e produção, interiorizou desenvolvimento, criou empregos e tributos, produziu internamente combustível renovável, reduziu sua dependência de importação de petróleo, reduziu emissões de carbono e por fim, ganhou um produto exportável.
Por mais incrível que possa parecer, os EUA encontraram no Brasil, o seu antigo parceiro das lutas em favor do fortalecimento do etanol como commodity mundial, um grande comprador do seu etanol.
"Nos EUA, o programa de combustíveis renováveis usando o etanol de milho, visivelmente menos competitivo que o etanol de cana, cumpriu o seu papel" (Foto: Getty Images)


A expansão da cana poderia ser feita com desmatamento zero
É interessante observar que o etanol de cana é um combustível limpo e renovável, de emissão praticamente zero, quando considerada toda sua cadeia produtiva. Seus competidores são altamente poluentes.
Pesquisa divulgada na revista Nature comprovou que a cana esfria a temperatura nas regiões onde está sendo produzida. É uma planta que, com inovação, pode produzir três vezes mais na mesma área. Sua grande expansão no Brasil envolveria desmatamento zero.
Porém, apesar de todos os benefícios ambientais, sociais e econômicos que sua produção e uso trás, a cana não desperta os interesses destes mobilizados brasileiros e estrangeiros das ONGs, cartunistas e artistas que aderiram à competentemente orquestrada campanha “Veta Tudo Dilma”, feita para o Código Florestal. Fica aqui lançada a sugestão para que esta gente possa, com a mesma força e mobilização, criar o movimento “Veta Gasolina, Presidente Dilma”. Seria um importante e coerente apoio.
Lula alardeou os benefícios do etanol de cana e a “autossuficiência” em petróleo: hoje, importamos petróleo, gasolina e etanol norte-americano
Há muito tempo, e mais fortemente desde a crise do final de 2008, em discursos, entrevistas e textos clamamos por uma política pública, por uma estratégia de médio e longo prazo que privilegie no Brasil as fontes renováveis de energia. Faltou sensibilidade econômica, ambiental e social no governo.
Nosso comunicativo ex-presidente fez o elogiável trabalho de alardear ao mundo os benefícios ambientais, econômicos e sociais do etanol de cana, prometendo que seriamos grandes produtores e exportadores, e também a imagem de sua mão suja de petróleo no dia do anúncio da “autossuficiência” do Brasil circulou por todos os lugares.
Pouco tempo após, somos importadores de petróleo, de gasolina, de etanol norte-americano, o etanol de cana perdeu participação no mercado interno e perdemos espaço no mercado mundial de açúcar.
Políticas públicas coerentes, se vierem, virão tarde: o estrago já foi feito
Prejuízo geral para nossa sociedade, mais um caso evidente de discurso desalinhado com a prática. Muitos tem memória curta, alguns não.
Políticas públicas coerentes precisam vir e se sabe quais são as necessárias. Mas já virão tarde.
O estrago já foi feito, o prejuízo à sociedade e aos empresários do setor é quantificável e aumenta ano a ano.
É difícil recuperar rápido este apagão de quatro anos, muitos postos de trabalho já foram perdidos, impostos deixaram de ser coletados, exportações minguaram, importações já foram consumidas e a luta contra a inflação perdeu um aliado.
Fica registrado no currículo de quem esteve à frente neste período da gestão, o naufrágio do etanol de cana, a maior vergonha do Brasil na Rio+ 20.


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