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Umas palavrinhas ao meu amigo comunista

Nilson Alves de Souza - Um Asno
Vejo que em muitos comentários meu amigo comunista, que prefere o anonimato, mas sua retórica o denuncia, ainda defende um estado "paizão" que deve decidir pelos seus filhos, o povo. Vale deixar claro meu ponto de vista, então. Não defendo brasões ou bandeiras, minha filosofia de vida não é pautada em logotipos e clichês, o vermelho corre apenas em minhas veias, jamais turva minhas ideias, nem cega minha visão ou distorce o que é real. Em minha epifania pessoal, as foices prestam melhor serviço nas lavouras, as aves pertencem as florestas e as estrelas ao espaço, não emprestam sua beleza a propagandas e batalhas políticas. Nas palavras de José Régio em seu Cântico Negro:

"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces
Estendendo-me os braços, e seguros
De que seria bom que eu os ouvisse
Quando me dizem: "vem por aqui!"
Eu olho-os com olhos lassos,
(Há, nos olhos meus, ironias e cansaços)
E cruzo os braços,
E nunca vou por ali...
A minha glória é esta:
Criar desumanidades!
Não acompanhar ninguém.
— Que eu vivo com o mesmo sem-vontade
Com que rasguei o ventre à minha mãe
Não, não vou por aí! Só vou por onde
Me levam meus próprios passos...
Se ao que busco saber nenhum de vós responde
Por que me repetis: "vem por aqui!"?

Prefiro escorregar nos becos lamacentos,
Redemoinhar aos ventos,
Como farrapos, arrastar os pés sangrentos,
A ir por aí...
Se vim ao mundo, foi
Só para desflorar florestas virgens,
E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada!
O mais que faço não vale nada.

Como, pois, sereis vós
Que me dareis impulsos, ferramentas e coragem
Para eu derrubar os meus obstáculos?...
Corre, nas vossas veias, sangue velho dos avós,
E vós amais o que é fácil!
Eu amo o Longe e a Miragem,
Amo os abismos, as torrentes, os desertos...

Ide! Tendes estradas,
Tendes jardins, tendes canteiros,
Tendes pátria, tendes tetos,
E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios...
Eu tenho a minha Loucura!
Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura,
E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios...
Deus e o Diabo é que guiam, mais ninguém!
Todos tiveram pai, todos tiveram mãe;
Mas eu, que nunca principio nem acabo,
Nasci do amor que há entre Deus e o Diabo.

Ah, que ninguém me dê piedosas intenções,
Ninguém me peça definições!
Ninguém me diga: "vem por aqui"!
A minha vida é um vendaval que se soltou,
É uma onda que se alevantou,
É um átomo a mais que se animou...
Não sei por onde vou,
Não sei para onde vou
Sei que não vou por aí!

Esse é meu hino, meu mantra, minha revelação! Minha visão de mundo está além do binário, das simulações e simulacros. Nesta visão a realidade se opera a milhões de bits por segundo. Não há espaços para alucinados que insistem em reduzir o todo na sua fração. Existe vida além da Esquerda e da Direita!
Quando, na faculdade,  fui obrigado a discorrer sobre a tese de Leonia Capaverde Bulla em seu ensaio sobre as "Relações sociais e questão social na trajetória histórica do serviço social brasileiro", aceitei satisfeito minha baixíssima nota por discordar da doença marxista que infesta nossos campus.

Não é alienação quando um brasileiro tem para escolher A Fazenda, a Libertadores, o Big Brother, Ratinho, Novelas, Minisséries, ou a leitura de um livro (um dos bons, pelo amor de Deus!). A desigualdade social não foi construída ao partir do Capital, ou dos meios de produção, ou ainda, do processo de industrialização. É antes, um fator de contexto histórico e, mais tarde, de escolha do indivíduo. A história está repleta de indivíduos que deixaram a última camada em que orbitavam para saltar a camadas mais sublimes. E isso só foi possível porque o mundo saltou do iluminismo a industrialização. Ah! Mas a sociedade se tornou patologicamente consumista! Aham... e ainda continuamos, desde os tempos bíblicos, diante do poderoso fator "Livre Arbítrio". Ainda é a escolha de cada indivíduo que determina sua satisfação ou não, sua doença, ou não, sua glória, ou não.

Políticos e simpatizantes, muito conscientes disso, se aproveitam das ferramentas mais atualizadas do marketing e das ideias convencionais mais atuais (ainda que ridículas) para a manutenção de seu jogo onde os peões continuam sendo a massa. Tive as mesmas oportunidades de educação que muitos dos que hoje empunham bandeiras (não é o caso do meu amigo comunista, sua educação foi um pouco mais privilegiada, pois suas condições eram bem melhores!), e tive a sorte de provar os cargos mais baixos e as funções mais humilhantes que um indivíduo pode experimentar na cadeia produtiva (também não foi o caso do meu amigo comunista, cujo único emprego foi o de professor levando sua ideologia cubana às salas de aula), mas decidi, como outros, a correr o risco de me perder e ser engolido pelo status quo e perseguir até a conquista, ou derrota, minha meta final: provar minha tese de que o indivíduo, e só ele, é responsável pelo seu destino.

P.S.: Aparece para continuarmos aqueles bons debates que sempre tivemos. Muita coisa boa fluiu deles. Sei que acompanha o blog porque conheço sua maneira de escrever. Adoraria que suas ideias (as suas) tivessem mais espaço e o convido para isso. Abraços Evaristo Galuá.

3 comentários:

  1. Quem é Evaristo Galuá?

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  2. Uma brincadeira com meu amigo! Refiria-me a Évarist Galois (seu sobrenome pronuncia-se galuá) um gigante francês da matemática.
    "Ao determinar a condição necessária e suficiente para que um polinómio pudesse ser resolvido por raízes, não só resolveu um antigo problema em aberto, como criou um domínio inteiramente novo da álgebra abstracta: a Teoria dos Grupos. Morreu num duelo com a idade de 20 anos. Tendo crescido durante um período de grande agitação social e política, colocou-se, repetidamente, no centro de controvérsias, o que não apenas o afastou de sua brilhante carreira, como também acabou por levá-lo a uma morte prematura". Fonte: Wikipedia

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  3. É que meu amigo gosta muito dele! (eu também)

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