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Ditadura, Mariguella, Democracia e Minha Participação no Tempo!

100 Anos de Carlos Marighella - Um Asno
Em 1975, meu país não parecia oferecer risco a um jornalista com emprego fixo, endereço conhecido, casado e com dois filhos. Parecia! Em março do ano anterior, o general Ernesto Geisel prometera promover a abertura do regime ditatorial. Na época a palavra de ordem era “distensão” e significava aliviar a censura, investigar denúncias de tortura e aumentar a participação da sociedade civil na política. Nesse período, minha família, como tantas, vivia no campo. Suas preocupações se resumiam a lavoura e a manutenção familiar. Para a cidade mobilizavam-se duas vezes por ano, salvo em caso de doenças, porque as compras deveriam durar ao menos seis meses.

Naquela época, fartura era uma palavra comum no vocabulário de lavradores no interior de São Paulo. Televisão tínhamos uma para toda a comunidade que vivia na fazenda - monocolor, é claro! Rádio também, embora em mais unidades. Eram as únicas distrações depois das tarefas comparadas as de Sísifo. Os programas de que me lembro na TV e no rádio eram: na TV, os filmes de Chaplin, os festivais de música, outros seriados com menor graça, novelas (que eu não estava autorizado a assistir, ainda bem!) e, curiosamente, desenhos que ainda se vê hoje na TV; no Rádio, ouvíamos a Jovem Guarda (não gostávamos dos Tropicalistas), música "caipira" e alguma MPB. Desviávamos de noticiários. Assim vivia grande parte da população brasileira naquela época (não muito diferente de hoje).

Nesse período, Geisel perdeu força no Congresso e sua promessa de aliviar as amarras da ditadura não prosperou. Vladimir Herzog "se suicidou-se" no DOI/CODI. Seria, segundo os representantes da ditadura, o trigésimo oitavo a "se suicidar-se", décimo oitavo a "se enforcar-se". Vítimas de um período de extrema loucura que havíamos mergulhado devido ao pega-pega do jogo de poder que ainda perdura nos dias atuais. Minha família, como centenas de milhares, ignorou completamente este fato. Tínhamos preocupações mais convenientes ao nosso "modo de vida" à época.

No final dos anos 70, meu avô, patriarca que era, decidiu migrar para a zona urbana para que os filhos tivessem mais oportunidades já que o campo, de vez em quando, reservava surpresas desagradáveis. Percas na lavoura forçaram muitos lavradores a seguir a mesma ideia. Meus pais e eu fomos os últimos. Vagamos por outras fazendas pelo interior do estado. Entre 81 e 83, as pressões políticas já ficam mais evidentes e, aborrecido, acompanho meu pai enquanto assiste aos noticiários, quando na realidade queria ver os filmes da Record. No dia 30 de abril de 1981 aconteceu o Atentado do Riocentro: marcou-me profundamente, sobretudo porque o governo tentou transferir a cagada para os extremistas. Nem tinha ideia do que eram as forças que disputavam o poder naquele momento.

O presidente seguinte foi Figueiredo e já existia uma mistura de canções sertanejas e a introdução de outros estilos na minha formação. Conheci o Rock Nacional, ouço Blues, Pink Floyd, Queen, Raul Seixas, Beatles, Rolling Stones, Creedence, The Who, Jimmy Hendrix, The Door's, Janis Joplin e outros menos nocivos. A música influenciava na rebeldia e na busca por sentido. Comecei a ficar curioso com os noticiários e a me espantar com algumas provocações de Figueiredo. Em 83 comecei a estudar programação de computadores e conheci a poesia e a literatura. Em 85 o Rock Nacional melhora muito e sua influência é muito forte no comportamento dos "aborrecentes". O movimento das "Diretas Já" tem como resultado a primeira eleição democrática com a vitória da oposição ao regime ditatorial. Gorbachev introduz a Perestroika e os intelectuais fervem. Leio o discurso na íntegra de Fidel Castro e me interesso pela Ilha. Leio o "Mini Manual do Guerrilheiro Urbano" de Carlos Marighella. As pressões do jogo de poder ainda mantém uma aparência como algo que faz sentido.

Em 86 me torno cinéfilo por influência de alguns amigos "Cult", fico chocado com o estilo furioso dos punks e na minha diarreia mental, decido que nasci para ser anarquista. Ouço iron Maiden, Ozzy Osbourne, The Clash, Dead Kennedys, Sex Pistols, participo de encontros, debates e fóruns diversos. Devoro os escritos de Bakunin, Proudhon, Marx, Tolstoi e outros débeis mentais dos quais me encontro vacinado atualmente. Cheguei a aprender serigrafia para reproduzir a carinha de herói do psicopata Che Guevara e a reproduzir textos no velho mimeógrafo promovendo a luz da sensatez aos que não comungavam das mesmas opiniões (perdoem-me, eu não sabia o que fazia!)Acompanhei o processo que culminou na Constituição de 1988. Avancei na minha militância cega até a queda do Muro de Berlin em 1989. Em 1992, já estou muito mais atento e percebo as manobras do velho jogo de poder e a dissimulada participação dos jovens "caras pintadas". Fico viciado no jogo de Xadrez! As influências musicais agora são muito mais variadas e algumas vezes sofisticadas. É introduzido no meu cardápio pessoal, Bob Dylan, Bob, Geldof, o Jazz e a música erudita. Nessa época já devoro todo tipo de notícias e desenvolvo meus critérios ao comparar diversos escritos a respeito do mesmo tema. Ainda existe paixão política em mim.

Em 93, fora de Birigui, mas não distante, enquanto fazia o Magistério, acompanho a palhaçada da guerra deflagrada no Oriente Médio. O jogo fica cada vez mais evidente. Neste ano vejo outra grande sacanagem sendo feita contra os trabalhadores do calçado em Birigui. Participava de outro movimento, a greve dos professores, mas tomei partido e me ferrei. Já aspirei o irritante odor do gás lacrimogêneo e senti o pânico causado pelas bombas de efeito moral. Em 1994, tomo meu primeiro grande tombo por confiar no sucesso do Plano Real, quando a maioria apostava no contrário. Nesta altura, divergia de algumas opiniões dogmáticas do grupo que fazia parte. O plano sobreviveu, mas minguei antes que todos fossem convencidos. Em 1996, viajo na maionese e atuo na campanha eleitoral do Partido dos Trabalhadores, ao qual já acompanhava desde a greve dos professores de 93. Conseguimos fortalecer a legenda no município. Dois anos depois, fora de Birigui novamente, trabalho para o antigo PL, extinto em 2006 e atual PR. Minha grande decepção, não com a legenda, mas com o que os dirigentes daquela cidade me propuseram na época. A bronca com os políticos e seus agentes começa a brotar. Aprendi a pensar sozinho - acho que foi o xadrez!

Entre Birigui, Maringá, Londrina, Curitiba (mais tarde Santa Catarina), lugares onde fixei residência, tive o privilégio de conhecer mais de mil municípios brasileiros em todo o período. Muitas realidades, muitas histórias... Em 2000, meu pai, com quatro meses de aposentadoria, após ter vencido a batalha com o INSS, é arrastado por trinta metros por um caminhão trator. Não poderia mais ir embora e abandonar minha mãe. Em 2002 mais decepções com a política, novo golpe financeiro e agora assisto ao triunfo monumental da hipocrisia e do populismo sobre a democracia ainda incompreendida em nossa história.

A palavra “democracia” passou a me fascinar e comecei a repudiar nomes que se aborrecem com ela, tais como: Lênin, Stálin, Hitler, Mao, Fidel, Che e outros tantos que se aborrecem com os valores que ela encerra. No que me diz respeito, continuo apegado a este regime que é baseado na representação, que garante a plena liberdade de organização da sociedade, que repudia a censura à opinião, que permite até que se oponham a ele e que se pauta pela igualdade dos homens perante a lei. Eu considero este regime uma experiência contínua da civilização, cujo valor exclusivo está na liberdade. É o melhor possível para o estágio de evolução que nos encontramos. Só não é melhor porque ainda não o compreendemos plenamente.

Chego ao final do ano de 2012. Hoje vario minhas preferências musicais entre Slipknot, Rammstein, Enya, Tori Amos, Rage Against the Machine, Loreena Mackennit, e o velho Rock'n Roll. Mas estou preocupado! Vejo algumas coisas acontecendo com a democracia que me levam a crer que teremos um colapso deste sistema ainda nas próximas duas décadas. Colapso, mas não implosão! Intelectuais, pensadores, políticos, psicopatas e afins, têm se mobilizado de uma maneira que os valores precípuos da democracia acabem se invertendo. Temos exemplos de ações contemporâneas que agem na direção de reparar a história oferecendo interpretações aos fatos que fogem a verdade. Julguei necessário esta enorme introdução para poder discorrer sobre a Portaria 2.780 publicada ontem no Diário Oficial e que oficialmente anistia Carlos Marighella.

No texto publicado pela Agência Brasil lê-se que Marighella foi militante do Partido Comunista Brasileiro e que ele foi “um dos principais organizadores da luta armada contra o regime militar”. Primeiro, ele foi um dos dirigentes do partido, mas oficialmente foi expulso. O que o tornou notável foi ter fundado o mais letal grupo terrorista do Brasil, a Ação Libertadora Nacional (ALN). O seu "Minimanual do Guerrilheiro Urbano" que pode ser lido aqui, é um texto que faz defesa aberta ao terrorismo. Marighella não recorreu as armas para enfrentar o regime militar. Seu objetivo era instaurar o regime comunista no Brasil à força.

Meus antigos professores de história me doutrinaram a crer que o AI-5 foi a causa das reações armadas pelos extremistas. Marighella é a prova de que isso é mentira! Em 1965, período ainda leve da ditadura, ele escreveu o livro “A Crise Brasileira”, em que atacava justamente o PCB por ser contra a luta armada. Em seguida escreveu “Algumas Questões Sobre a Guerrilha no Brasil” e o partido o expulsa em 1967. O hoje consagrado campeão e mártir da democracia brasileira (que nunca nem sequer pensou nela), fundou a ALN no começo der 1968. O AI-5 só foi decretado no dia 13 de dezembro de 1968, enquanto que o primeiro atentado da ALN ocorreu em 19 de março do mesmo ano. A luta armada jamais foi pensada como maneira de derrubar a ditadura para instaurar a democracia no país e, muito menos, foi deflagrada por causa do AI-5.

Marighella, que no dia 4 de novembro de 1969, foi surpreendido por uma emboscada na Alameda Casa Branca, em São Paulo e foi morto a tiros por agentes do DOPS, liderados pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury, era defensor de emboscadas e recomendava aos guerrilheiros que recorressem a ela sem piedade! O trecho a seguir é de seu manual e eu li há muitos anos, mas é sugestivo:
As emboscadas são ataques tipificados por surpresa quando o inimigo é apanhado em uma estrada ou quando faz que uma rede de policiais rodeie uma casa ou propriedade. Uma mensagem falsa pode trazer o inimigo a um lugar onde caia em uma armadilha.O objeto principal da tática de emboscada é de capturar as armas e castigá-los com a morte.  As emboscadas para deter trens de passageiros são para propósitos de propaganda, e quando são trens de tropas, o objetivo é de eliminar o inimigo e tomar suas armas. O franco-atirador guerrilheiro é o tipo de lutador ideal especialmente para as emboscada porque pode se esconder facilmente nas irregularidade do terreno, nos trechos dos edifícios e dos apartamentos sob construção. Desde janelas e lugares escuros pode mirar cuidadosamente a seu alvo escolhido. As emboscadas tem efeitos devastadores no inimigo, deixando o nervoso, inseguro e cheio de temor. (...)

A acusação de “violência” ou “terrorismo” sem demora tem um significado negativo. Ele tem adquirido uma nova roupagem, uma nova cor. Ele não divide, ele não desacredita, pelo contrário, ele representa o centro da atração. Hoje, ser “violento” ou um “terrorista” é uma qualidade que enobrece qualquer pessoa honrada, porque é um ato digno de um revolucionário engajado na luta armada contra a vergonhosa ditadura militar e suas atrocidades.Execução é matar um espião norte-americano, um agente da ditadura, um torturador da policia ou uma personalidade fascista no governo que está envolvido em crimes e perseguições contra os patriotas, ou de um “dedo-duro”, informante, agente policial, um provocador da policia.Aqueles que vão à polícia por sua própria vontade fazer denúncias e acusações, aqueles que suprem a polícia com pistas e informações e apontam a gente, também devem ser executados quando são pegos pela guerrilha.A execução é uma ação secreta na qual um número pequeno de pessoas da guerrilha  se encontram envolvidos. Em muitos casos, a execução pode ser realizada por um franco atirador, paciente, sozinho e desconhecido, e operando absolutamente secreto e a sangue frio.
Verdadeiras pérolas, não é mesmo? Dediquei dois artigos anteriores a este "herói" que a juventude agora idolatra. Um sobre as indenizações que terroristas receberam, enquanto suas vítimas esperam justiça e outro sobre uma de suas vítimas, justamente no ato que pressionou o estado a retaliar com a decretação do Ato Institucional número 5! Jamais defenderei um regime ditatorial, seja qual for! O dos militares ou o que queriam os extremistas (terroristas) que pegaram em armas para confrontá-los. Eram duas maneiras de impor à maioria o que uma minoria de cada grupo concordava! Os militares cagaram! Que paguem pela sua cagada. Os terroristas cagaram e limparam o c... com a merda! Que paguem igualmente e não sejam transformados em ídolos para os jovens desatentos.

Naquele jogo pelo poder, assim como o travado pelos atuais 30 partidos existentes no Brasil, o povo nunca foi ou é o objetivo. Nosso povo é ainda considerado massa de manobra por uma classe cada vez mais contaminada por sociopatas muito habilidosos em transmitir a mensagem de que são seus representantes. Não existem mais ideologias. O poder é o objetivo e a democracia vem sendo fracionada para atender aos objetivos dos grupelhos, nunca da maioria. A maioria está tão atenta hoje como estava em 1975. A democracia está perdendo de goleada e somos nós que estamos falhando em sua defesa.

Um comentário:

  1. Não seria terrorista o Estado?
    As práticas terroristas são abomináveis... Assim como o Golpe de Estado e a própria operação Brother Son... Que seria implantada caso os militares insurgentes não tomassem o poder.

    Renato

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