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Então o Terrorismo é uma justificativa e uma opção?

Terrorismo - Um Asno
Estou vendo algumas besteiras escritas em tom de intelectualidade, mas que apenas denunciam um grande vazio de pensamento do nosso século. Vejo pessoas e até a imprensa tomando partido com relação ao conflito entre Israel e o Ramas. Neste caso, Israel é o vilão, óbvio (tem que se ter um lado, não é mesmo?). Nem sou defensor da causa sionista, como também não aprecio e nem endosso a resposta muçulmana. Este texto é extenso, como também devem ser extensos os debates sobre o que está acontecendo. Mas antes, é necessário desfazer alguns nós sobre o que vem a ser o terrorismo.

O uso da violência sistemática, com objetivos políticos, contra civis ou militares que não estão em operação de guerra seria sua expressão mais formal, mas existem muitas formas de terrorismo. Existem os terroristas que praticam atentados em nome de Deus, os nacionalistas que agem segundo um ideal patriótico, os ideólogos que são motivados por uma visão de mundo e os mercenários que apenas agem por uma mera contribuição pecuniária. Há ainda o terrorismo de estado em que se adota a eliminação física de minorias étnicas ou simplesmente de adversários de um regime. Vimos esse tipo no regime racista da África do Sul até o fim do apartheid e na América Latina onde as ditaduras militares dos anos 60 e 70 torturaram e mataram milhares de pessoas.

No Brasil ainda tivemos o surgimento de grupos como a ALN do, agora ídolo dos adolescentes, Carlos Mariguella. Aqui se deve impor um parêntese! Com o êxito da Revolução Cubana no final dos anos 50, deu-se um novo ânimo aos jovens desiludidos daquele período. A vitória de Fidel Castro, contra uma ditadura corrupta, significava para muitos uma vitória do idealismo e isso inspirou muitos jovens a uma visão romântica e equivocada de justiça social através da ação armada. Com a disposição para luta renovada, surgem a guerrilha e o terrorismo. A guerrilha, de um modo geral, teria seu foco apenas em objetivos militares e alvos estratégicos. Neste conceito, a conquista da simpatia da população abriria caminho para que chegassem ao poder. Com os grupos terroristas o método é inverso. Valem-se da intimidação geral para atingir seus objetivos. Em muitos casos vemos e vimos guerrilhas adotando o terrorismo.

Em nosso país, as ações de ambos os lados, direita e esquerda, foram atos terroristas. Grupos de extrema-direita atacaram artistas, lançaram bombas contra entidades civis e intimidaram personalidades de perfil humanista, como o arcebispo Dom Hélder Câmara, que teve sua casa metralhada em Recife, em outubro de 68. Agentes dos órgãos de segurança e dos serviços de informação das Forças Armadas agiam à margem da lei com prisões arbitrárias, torturas e o assassinato de opositores do regime militar. Em contrapartida, os grupos clandestinos de esquerda financiavam suas atividades com dinheiro obtido em assaltos a banco e furtos de automóveis. Também praticavam sequestros de diplomatas para negociar sua libertação em troca de armas e da soltura de presos políticos.

Nem sempre os grupos iniciaram suas atividades como terroristas, como o Exército Republicano Irlandês, o IRA. Ele foi formado em 1919 por grupos da minoria católica que protestavam pela união da Irlanda do Norte à República da Irlanda. Na década de 60, os católicos foram às ruas pacificamente, contra leis discriminatórias impostas pela maioria protestante. Aproveitando o clima de insatisfação, um grupo de militantes relançou o IRA, dessa vez com um verniz ideológico marxista. A fase pacífica do movimento terminou num domingo de janeiro de 1972, quando tropas britânicas dispararam suas armas contra os manifestantes, matando 13 pessoas. O incidente, que passou à história como "Domingo Sangrento",  e é citado na música "Sunday Blood Sunday" do U2 desencadeou uma escalada do terrorismo.

A ETA, organização que protestava pela autonomia basca frente a Espanha, também surgiu pacificamente. ETA, no idioma basco, são as iniciais de "Pátria Basca e Liberdade". Criada em 1959 para difundir a cultura e os valores tradicionais do povo basco, a ETA foi perseguida pela ditadura de Francisco Franco e entrou para a clandestinidade e o terrorismo em 1966. Na Europa, na década de 70 houve também a ação de grupos terroristas sem vínculos com lutas democráticas ou de libertação nacional, como o grupo Baader-Meinhoff, na Alemanha, e as Brigadas Vermelhas, na Itália. Eram organizações formadas por intelectuais e universitários que adotaram a violência em nome de uma genérica "guerra contra a burguesia".

No Oriente Médio o negócio é mais embaixo. Palestinos de cidadania israelense e os habitantes dos territórios de Gaza e Cisjordânia foram segregados e sofreram ataques das forças armadas de Israel, entre 1967 e 1993. O terrorismo de extremistas muçulmanos contra judeus de Israel, por sua vez, também aterrorizou e matou pessoas inocentes, principalmente a partir da década de 80. Desde a década de 50 a morte deixou de ser uma conseqüência natural da vida para se tornar uma questão política.

O fundamentalismo islâmico não tinha caráter terrorista na época em que surgiu. A Irmandade Muçulmana apareceu em 1929, no Egito, com preocupações sociais e propósitos religiosos. Mas a partir dos anos 30 foi perseguida pelo rei Fuad e por seu sucessor, o rei Faruk, favoráveis à dominação britânica. A Irmandade partiu para a radicalização e o terrorismo no início dos anos 50, com a ascensão do líder nacionalista Gamal Abdel Nasser, acusado de defender interesses ocidentais. A ação mais espetacular da Irmandade Muçulmana foi o assassinato do presidente egípcio Anuar Sadat, em 1981. Sadat foi considerado traidor por ter assinado os acordos de Camp David, em 78, que reconheciam o direito de existência do Estado de Israel.
A crise no Oriente Médio também fez surgir, em 1964, a Organização Para a Libertação da Palestina, uma frente reunindo diversos grupos. A OLP, que tinha como base a Al Fatah, facção liderada por Yasser Arafat, foi criada em decorrência de um quadro político cada vez mais conturbado. Os ânimos na região estavam acirrados desde a criação de Israel, em 1948. Com o apoio político, econômico e militar de soviéticos e americanos, Israel promoveu guerras com alguns vizinhos árabes para expandir seu território. Centenas de milhares de palestinos foram expulsos de suas terras. Organizações terroristas judaicas, como a Irgun, a Stern e a Haganah tiveram um papel importante na intimidação da população palestina, chegando a massacrar aldeias inteiras.
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No final dos anos 70, o terrorismo ganhou um novo ingrediente religioso, com a ascensão dos muçulmanos xiitas no Irã, em janeiro de 79. Sob o comando do aiatolá Khomeini, os xiitas derrubaram a ditadura do xá Reza Pahlevi e implantaram um sistema que fugia à lógica dos dois blocos econômicos, liderados por Estados Unidos e União Soviética. A partir da revolução iraniana, foi implantado um sistema de governo guiado por convicções religiosas radicais e inflexíveis. Khomeini inaugurou a chamada "Jihad" em nossos dias, a Guerra Santa contra o Grande Satã, representado pelo mundo não xiita. Daí para a prática do terrorismo foi um passo. O inédito nessa história era o caráter oficial do terror, assumido claramente pelo regime dos aiatolás.

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No começo dos anos 80, o Líbano tornou-se palco de inúmeros atentados. Várias facções disputavam o poder apoiadas por países vizinhos, especialmente Síria e Israel. Na tentativa de capturar ou eliminar o líder Yasser Arafat e destruir bases militares palestinas, forças israelenses invadiram o Líbano, em junho de 82. Durante vários dias, a capital libanesa transformou-se num inferno. Milhares de civis foram mortos, entre eles mulheres, velhos e crianças. Os israelenses não encontraram Arafat, mas expulsaram a OLP e deixaram o Líbano em ruínas. Em setembro de 82, falanges cristãs libanesas, apoiadas por Israel, atacaram os campos de refugiados de Sabra e Chatila, nos arredores de Beirute. Mais de 2.500 civis palestinos e libaneses desarmados foram mortos. O massacre chocou a opinião pública internacional. Foi nesse clima extremamente tenso que se multiplicaram os grupos terroristas no Líbano nos anos 80.

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A ideia de terrorismo como instrumento de luta política surgiu no século 18. Na era contemporânea, a França conheceu o regime de terror implantado pelos jacobinos de Robespierre a partir de 1793, pouco depois da Revolução Francesa. Quase um século depois, em 1881, o czar Alexandre Segundo, da Rússia, foi assassinado pela organização terrorista "Vontade do Povo". E, no início do século XX, o estopim que deflagrou a Primeira Guerra Mundial foi o atentado contra o arquiduque austro-húngaro Francisco Ferdinando, em 1914. Ele foi morto pelo estudante Gavrilo Prinzip, do grupo terrorista sérvio "Mão Negra". Stalin enviava aos campos de concentração centenas de milhares de opositores ao seu regime, sem contar os treze milhões de camponeses executados por resistirem à coletivização de suas terras, entre 1929 e 1932. Na Alemanha dos anos 30, Hitler iniciou a perseguição aos comunistas, judeus, ciganos, e outras minorias étnicas (como os maçons). Até o final da Segunda Guerra, em 1945, seriam assassinados seis milhões de seres humanos pela máquina nazista. Os dois regimes de terror tinham algumas características muito semelhantes: o culto à personalidade do dirigente, no caso Stalin e Hitler, e os poderes absolutos da polícia política, no caso a KGB e a GESTAPO. Na Espanha, movimentos anarquistas atuam desde a década de 1870. Alguns deles promoveram uma série de atentados terroristas que levaram a uma forte reação do governo espanhol e à perseguição de todos os simpatizantes da causa anarquista. Ainda no século XIX, após a guerra de secessão norte-americana, surgiu a Ku Klux Klan, grupo racista que espalhava o terror à população negra, provocando mortes e incendiando casas e plantações.

Quanto mais gigantesca e violenta é a ação, mais o terrorismo conta com a cobertura dos meios de comunicação, que transformam a barbárie em espetáculo, acompanhado por milhões de pessoas em todo o mundo. No atentado ao World Trade Center, depois de um primeiro avião ter atingido uma das torres, as câmaras de televisão passaram a transmitir ao vivo o acontecimento, e pessoas do mundo todo puderam ver em tempo real um segundo avião mergulhar na outra torre. Foi também ao vivo que os telespectadores assistiram ao edifício desabando e à população em desespero sob a poeira e os escombros produzidos.
World Trade Center - Um Asno

No Oriente Médio, extremistas matam e ferem para tentar atrapalhar as negociações de paz entre Israel e os palestinos. Na Grã-Bretanha, grupos radicais do IRA também apavoram inocentes, procurando reacender a violência dos anos 70. E aqui e ali, fanáticos religiosos passam dos limites em nome do apocalipse. Somos uma raça hostil e violenta em nossa natureza e buscamos justificativas a nossa desarmonia com o mundo pacífico e abundante em que habitamos. O sentimento de injustiça e a tendência ao ataque surge exatamente quando tomamos partido. Vemos nos noticiários a cada eleição como grupos de militantes e simpatizantes agem para defender seus ídolos políticos e para desmoralizar seus oponentes. Depois da ressaca fascistoide assistimos todos juntos ao sentimento de insatisfação, seja qual for o vitorioso nos pleitos. É um abismo da incoerência! Não há lados, não há vitoriosos! Todo partido é uma fração, logo, não representa jamais o todo, nem sequer uma particularidade deste.

Talvez a conclusão mais importante a que podemos chegar é a de que o terror gera o terror. Governos rotulam seus adversários de terroristas, mas se esquecem de suas próprias responsabilidades. O terror existe e crescerá sempre que o diálogo se torne impossível e o diálogo sempre será impossível se qualquer um dos lados for pautado pela ignorância, arrogância, prepotência e na crença de que seja representante de uma verdade absoluta. Nunca, em nenhum registro da história, o terror venceu! Apenas causou enormes danos e ressentimentos e contribuiu para o surgimento de mais grupos afetados e dispostos a reagir através do terror. Sempre esses grupos evocaram para si uma visão libertadora e uma ação revestida de ideologia do bem comum, mas é o seu bem que visam, a sua fração, não o da coletividade.

A seguir os principais grupos terroristas e onde estão localizados no espaço geográfico mundial.

Al Qaeda: grupo fundamentalista islâmico que possui financiadores para o desenvolvimento de ataques em diferentes pontos do planeta, além disso, detém ramificações da organização, configurando assim como uma atitude globalizada. Esse grupo surgiu no Oriente Médio, porém os ataques ocorrem nessa região e em outros pontos do planeta.
Hamas (Movimento de Resistência Islâmica): grupo que atua em locais próximos à fronteira entre a Palestina e Israel, que busca a formação do Estado Palestino através de atentados com homens bomba e outras modalidades.
Jihad Islâmico da Palestina: desenvolve suas práticas em Israel, em áreas ocupadas pela Jordânia e Líbano.
Hizbollah (Partido de Deus): desenvolve-se no Líbano, com participantes nos Estados Unidos, Europa, Ásia, África e América do Sul.
Al Jihad: age no Egito, busca implantar um Estado Islâmico, possui ligação no Afeganistão, Paquistão, Iêmen, Sudão, Líbano e Reino Unido.
Organização Abu Nidal: age principalmente no Iraque, Líbano, Líbia e Egito.
Frente Popular para a Libertação da Palestina: atua na Síria, Líbano, Israel e na Palestina. 
Frente popular de Libertação da Palestina - Comando Geral: representa um grupo terrorista que surgiu na Palestina, atua na faixa de Gaza, Síria e Líbano.
Brigada dos Mártires do Al-Aqsa: grupo palestino terrorista que atua com ataques, atentados, rebeliões contra Israel.
Grupo Abu Sayyaf: age especialmente no sul das Filipinas e Malásia.
Grupo Islâmico Armado (GIA): age na Argélia, esse grupo terrorista se formou em 1992.
Kach e Kahane Chai: grupo terrorista israelense que busca a implantação do território conforme está expresso na Bíblia, dessa forma seu maior inimigo é a Palestina.
Grupo Islâmico (GI): grupo terrorista que atua no Egito, além do Afeganistão, Sudão, Reino Unido, Iêmen e Áustria.
HUM (Harakat ul-Mujahidin): grupo extremista que age em função do islamismo em países como o Paquistão e Índia, na região da Cachemira.
Movimento Islâmico do Usbequistão: tem suas atuações, sobretudo, no Usbequistão, além do Afeganistão, Tajiquistão e Quirguízia.
Partido dos Trabalhadores do Curdistão: corresponde a um grupo que aspira por território e independência, representa o povo curdo, age na Turquia, Iraque, Síria e Europa Ocidental.
Exército de Libertação Nacional do Irã: grupo que busca a expansão do islamismo.
Tigres Tâmeis: grupo separatista que busca a independência entre o norte e o sul do Sri Lanka.
ETA (Pátria Basca e Liberdade): busca a independência territorial da França e Espanha.
Ira (Exército Republicano Irlandês): luta pela saída das forças britânicas do território da Irlanda, atua em partes da Europa, especialmente na Irlanda do Norte. Esse é um grupo católico.
Ensinamentos da Verdade Suprema: grupo com base religiosa que acredita que o fim do mundo está próximo e esse será decorrente da Terceira Guerra Mundial entre Estados Unidos e Japão.
Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia): corresponde a um grupo guerrilheiro que desenvolve um estado paralelo na Colômbia, sua atuação é mais evidenciada na Venezuela, Panamá e Equador, além dos ataques, atentados e sequestros ocorridos internamente.
Exército de Libertação Nacional – Colômbia: esse grupo tem sua atuação na Colômbia e têm ideais semelhantes aos praticados em Cuba, promove uma grande quantidade de sequestros no país, principalmente de estrangeiros.
Autodefesas Unidas da Colômbia: grupo vinculado ao narcotráfico que visa proteger seus negócios contra as ações da Farc, além de garantir o plantio da coca e o mercado de cocaína.
Sendero Luminoso: grupo guerrilheiro que age no Peru em busca da implantação de um estado comunista.
Movimento Revolucionário Tupac Amaru: grupo que atua no Peru e visa à instauração do regime socialista no país.
Frente Revolucionária de Libertação Popular: grupo com ideais marxistas que age na Turquia e contra os Estados Unidos.
Organização Revolucionária 17 de Novembro: atua na Grécia contra Estados Unidos, OTAN e União Europeia.
Luta Revolucionária do Povo: grupo que foi criado para confrontar o governo militar e a ditadura que vigorou na Grécia, na década de 70.
Grupos Separatistas Chechenos: grupos terroristas que buscam a independência da Chechênia em relação à Rússia, esses cometem uma série de atentados.

Fonte (s): TV Cultura
Eduardo de Freitas - Graduado em Geografia - Equipe Brasil Escola
Bibliografia: LUCCI, E.A., et all. Território e sociedade no mundo globalizado: geografia geral e do Brasil. São Paulo : Saraiva, 2005. p.408-420.

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