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Empreendedorismo em tempos de crise

Empreendedorismo - Um Asno
Minha resposta ao estudante João Luiz Targueta do curso de Capacitação Profissional da Universidade de Guarulhos, UNG, sobre o empreendedorismo. A primeira coisa é deixar claro o que significa ser um empreendedor e eu não vejo forma mais concisa do que definir o ato de empreender como sendo aquela característica onde um indivíduo possui a visão e atitude de proprietário de um negócio. Empreendedorismo está associado a atitude empreendedora, ou seja, ao comportamento do indivíduo que o habilita a agir proativamente. Grosso modo, empreendedor não é patrão, é quem possui certas características que usualmente são associadas aos patrões, mas podem muito bem ser encontradas em funcionários. Há muito mais funcionários empreendedores espalhados em diversos empreendimentos que são conduzidos por não empreendedores em nosso país. O que também é uma lástima, por que se esses patrões tivessem visão empreendedora poderiam aumentar em muito suas vantagens competitivas apenas aceitando e valorizando a participação desses funcionários.

As características de um empreendedor, tais como, uma visão para criar opções que garantam um melhor desempenho ou um lucro maior, a capacidade de transformar rotinas de trabalho e com isso gerar mais produtividade, a qualidade de ter idéias inovadoras e assim por diante, deixam bem claro que um empreendedor deve ser capaz de enxergar além do cotidiano e de apresentar soluções criativas e hábeis para problemas que a maioria não consegue. Para ser um bom empreendedor, usando como base minha própria experiência, deve-se corresponder a três pilares básicos, sendo eles: Planejamento, Liderança e Visão Estratégica. Há ainda um quarto elemento, cuja relevância me obriga a lhe dar um destaque fora do tripé antes mencionado... Trata-se da capacidade de assumir riscos e estar disposto a rasgar o cu na lata! O empreendedor deve estar ciente de que irá perder em muitos casos, de que irá errar, talvez mais do que acertar e, ainda assim, permanecer firme e disposto a perseguir seus objetivos.

Resumindo cada um dos fatores para não estender muito a resposta ao estudante que foi gentil ao me escolher, darei destaque exclusivo à Liderança. Se sou um bom líder tenho capacidade de planejar e executar o que planejei junto com meus auxiliadores. Se sou um bom líder, tenho uma visão estratégica amparada por muito tempo dedicado a pesquisa e ao estudo do negócio ao qual me propus empreender. Em síntese, liderar é ser capaz de inspirar outros indivíduos a usar o seu modelo de ação como referência para as ações deles. E ponto! Um líder tem de ser capaz de inspirar os outros com seus exemplos e não com seus preceitos. Eu seguirei a determinado líder por que suas ações são um modelo que eu gostaria de seguir. De fato, gostaria de ser como esse líder e por isso me permitiria ser conduzido por ele, já que confiaria em sua capacidade de enxergar pontos que eu mesmo ainda não conseguiria ver e já que suas atitudes seriam assertivas e suas decisões trariam sempre os resultados que eu mesmo gostaria de conquistar. Se você não consegue inspirar nem ao seu filho como modelo para conduta de vida, onde se encontra sua liderança.

Se o indivíduo não reúne esses três componentes básicos para se tornar um empreendedor é melhor que elabore um bom currículo e procure alguém com essas qualidades para ser seu empregador. Simples assim! Não existe curso ou faculdade que garanta a formação de um empreendedor. Muitos bons administradores surgem das universidades e até de instituições como o Sebrae ou a meritória UNG, mas o empreendedorismo é uma qualidade que se desenvolve a partir de um comportamento. Empreendedores gastam pouco ou tempo nenhum reclamando ou procurando em quem colocar a culpa pelos desvios de rota em seus objetivos. Estão mais ocupados em responder a uma pergunta básica: o que ainda não existe, mas que se existisse mudaria completamente a vida das pessoas? Empreendedores são obcecados por números e metas. Perseguem seus resultados com a determinação e dedicação de predadores. Mais uma vez! Se essas características não fazem parte da sua personalidade, procure quem as possua e peça emprego a ele!

Confesso que, diferente do orgulho manifestado pelo próprio Sebrae a cada interação com seus clientes quanto ao número sempre crescente de empreendedores no nosso país, eu, de modo algum, compartilho deste ponto de vista. Vejo é uma crise cada vez mais volumosa nesse quesito. Temos cada vez mais aventureiros e pessoas que não querem ter patrão, mesmo sem ter a mínima ideia de como ser um, se lançando em empreendimentos desastrosos que acabam conduzindo o estado a intervir cada vez mais neste campo. Seja através de regulações ou intervenções em fatores que oneram ou engessam cada vez mais o desenvolvimento relativo ao empreendedorismo. Cito neste caso, por exemplo, a necessária, porém, ineficaz burocracia que temos atualmente. Reitero que, para discordar da comemoração ao número crescente de empreendimentos no país, lembro do número escandaloso de fechamentos e endividamentos a que muitos supostos empreendedores acabam se condenando antes mesmo de completarem cinco anos no mercado. Também sugiro uma releitura do primeiro parágrafo para identificar em quantos dos empreendimentos que surgem no Brasil atualmente se encontram ao menos duas das qualidades referidas anteriormente.

É claro que há inovação no país! Também surgem no mercado várias ideias que contribuem para um cenário favorável e até otimista com relação a criatividade. Porém são iniciativas ainda tímidas e em boa parte com contribuição medíocre para os fatores que impactam no desenvolvimento do país. Quantos grandes empreendedores podemos elencar em um simples almaço hoje? Eike Batista nem seria lembrado na lista, provavelmente! Temos, sim, um número gigante de empreendimentos, mas empreendedores, para tanto, é evidente que neste caso ainda somos medíocres. Onde estão nossos Irineus (referência ao Barão de Mauá), onde foram parar nossos Matarazos, Abravaneis, Chatôs, etc. Sim! Já tivemos uma história mais rica no que se refere ao empreendedorismo, mas atualmente estamos em crise! Esta crise ocorre justamente por causa da falta de um ou mais elementos daquele tripé que mencionei no início. Quando temos Planejamento, falta Liderança para que as metas sejam atingidas. Quando temos Visão Estratégica, falta Planejamento para ordenar cada passo e organizar as tarefas que precisam ser executadas.

Encerro
Falar de empreendedorismo em tempos de crise pode se resumir simplesmente lembrando que nesses tempos, quando alguém perde, outros sempre ganham. Isso nada tem a ver com sorte e sim com estar preparado para certas situações. Empreendedores enxergam oportunidades onde outros só enxergam abismo. A ótica de um empreendedor é preparada para identificar oportunidades e seu caráter é forjado para assumir riscos. Quando eu afirmei que este herói deve ser talhado para ser capaz de rasgar o c... na lata foi justamente por que o empreendedor reconhece que em muitas vezes ele será obrigado a encarar o fracasso, mas isso não o intimida. Em todos os períodos e abrangendo a todos os segmentos econômicos de uma nação existem crises. Seja o clima um fator de desespero para alguns, o mercado financeiro para outros, a desaceleração da economia, a intervenção do estado, etc., ao empreendedor de verdade tudo isso são apenas janelas de oportunidades que devem ser exploradas.

Já perdi e ganhei como empreendedor. Já arrisquei mais do que possuía e também levei outras pessoas a se arriscarem comigo. Cometi erros de avaliação e acertos onde muitos erraram e com isso consegui conquistar a maturidade de saber quando ousar e quando recuar. Como muitos, não tive formação acadêmica voltada para o empreendedorismo. Busquei-a por minha conta abandonando a retórica das cadeiras acadêmicas e identificando-a em vários nichos de investimento pessoal. Atualmente trabalho focado na Gestão de Processos Industriais, onde dediquei a maior parte dos meus estudos nos últimos anos. Há muitos outros fatores que pesam nos resultados positivos de quem decide empreender uma jornada cega rumo a um horizonte desconhecido de oportunidades. Mas, por mais que existam técnicas, metodologias e guias específicos para os empreendedores, não existe garantia de sucesso em nenhum empreendimento. A todo instante o empreendedor será bombardeado por circunstâncias que testarão suas habilidades e flexibilidade diante dos infortúnios. E a todo instante surgirão janelas oportunas para aqueles que sabem como identificar o momento ideal para agarrar sua oportunidade como o predador faz com sua presa.

O momento atual exige cautela para qualquer novo empreendimento. Não significa que se deva recuar de fato! Apenas que uma decomposição e reflexão sobre todos os dados é mais prudente do que a ousadia gratuita baseada só no modelo de agressividade do empreendedor. Sejamos sábios para liberar toda a energia da nossa agressividade apenas no momento ideal. Qual seria esse momento? Está muito próximo! Alguns momentos favoráveis já passaram e poucos enxergaram, mas ainda outros virão. É só estarmos preparados.

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