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Reflexão - O amor é uma Droga!

Reflexões sobre o Amor - Um Asno
Farei uma distinção entre Amor e amor, já que as pessoas sentem dificuldades para separar o sentido de uma palavra de sua associação a um comportamento. Ouvir de lábios trêmulos com voz mansa e respiração quente a frase "Eu te amo" sempre foi um gatilho para despejar em nosso organismo um coquetel de enzimas e hormônios capazes de nos fazer experimentar, ao menos por alguns momentos, um quase real estado de felicidade. Sentir o toque da pele enquanto se segura uma mão, sentir o calor de um corpo que lhe abraça com ternura e desejo e poder experimentar um suspiro de satisfação apenas por aquele instante existir é uma experiência que transcende qualquer esforço analítico. Falar de Amor e romance está na moda! Porém, existe pouca profundidade nos textos espalhados pela internet. Há uma imensidão de declarações muito bonitas, de compromissos que dificilmente imaginaríamos que um dia pudessem terminar, mas compreensão do sentido do Amor, falta a quase todos. Já escrevi neste blog e em meu site pessoal (aqui) acerca do amor, abordando o campo psicológico e até químico deste comportamento humano.

O Amor tem sua própria mecânica e por isso fascina tanto aos poetas quanto aos cientistas. Lendo o artigo de João Bosco Leal publicado recentemente neste blog (aqui) e em seu site pessoal (aqui), acabei sendo conduzido a refletir mais uma vez sobre o assunto, segundo minha própria experiência somada a alguns entendimentos posteriores. Mais uma vez, não tenho muito o que dizer sobre o texto muito bem elaborado do meu amigo escritor, mas decidi ponderar outros aspectos da questão que envolve o que convencionou-se chamar de "amor" nos últimos tempos, sobretudo, no campo psicológico da questão. Leal tem razão quando aborda a presença do elemento financeiro nos relacionamentos, mas também existe outro tipo de dependência que ainda aprisiona muitas pessoas a compromissos insatisfatórios. Pretendo, na realidade, abordar quanto as razões que o amor se tornou "pouco profundo, sem bases assentadas na amizade, no carinho, no companheirismo, na dedicação e, sobretudo, na ausência de projetos comuns", partindo da análise do próprio João Bosco Leal, mas com ênfase na dependência psicológica.

O Amor dói, deixa louco, entorpece os sentidos e nos induz a escolhas erradas? A resposta mais curta possível: NÃO! A responsável por cada um desses elementos é nossa construção íntima, aquilo que define como enxergamos o que está a nossa volta e como isso influência o que está em nosso interior. Cada um poderá responder ao chamado do Amor de forma distinta, desde que esteja livre de amarras sociais e convenções pré-concebidas por outras fontes que não as suas. Algumas amarras, Leal já abordou em seu texto e eu não acrescentarei nada nesse sentido. O amor só é Amor se estiver sob o comando consciente da Vontade. A combinação perfeita da bioquímica responsável pela nossa resposta ao sentimento de afeto por uma outra pessoa fará brotar (e crescer), o que mais tarde chamaremos de Amor. Amor instantâneo não existe! O nome disso é paixão! Amor à primeira vista é apenas o encontro da predisposição para amar com a oportunidade para tanto. Na maioria dos casos, não passa de mera ilusão...

É possível, através do Amor, que uma pessoa que dedicou anos convencendo outra de que a amava, venha a ter esse sentimento convertido em ódio, agressão, morte ou rompimento? Mais uma vez e categoricamente a resposta é NÃO! De novo, o que age nestes casos é o caráter do agressor em questão. Pessoas que entendem o sentido do Amor encontram harmonia em si mesmas obedecendo a regras simples: não permitir que seu sentimento seja obstáculo à felicidade do outro; não transformar seu sentimento em correntes (limites), a liberdade e inclinações individuais do outro e, por último, jamais olhar para trás! O Amor, nasce e evolui através de eventos que se encontram no passado, mas é constantemente construído como se sua origem estivesse sempre descansando no solo fértil do presente. Fracassa todo amor que se alimenta de boas memórias, mas que se encontram apenas no passado. Fracassa, também, todo amor que permanece constantemente projetado para os dias futuros. Nenhuma relação se sustenta se possui apenas raízes robustas no passado, ou a crença nos desejáveis frutos do futuro.

O Amor é um comportamento exigente! Para existir ele não necessita ser alimentado... Ele exige alimentar! A contradição do Amor se encontra exatamente aqui! Quem ama de verdade tem a necessidade de amar! Quando o sentimento em questão é a necessidade de ser amado, há perigo no horizonte! O nome disso é carência! É aqui onde começamos a identificar os elementos da Dependência Psicológica! Quando identificamos uma necessidade mórbida de "algo" para nos fazer sentir como se vivêssemos normalmente e de maneira confortável apenas se esse "algo" estiver presente em nossa rotina, somos perigosamente dependentes. É a mesma relação com as drogas ou com qualquer outro vício de nossa personalidade. Existe tratamento, mas é muito mais lento e complicado do que para a dependência física. Logo, observemos o quanto um viciado encontra dificuldades para se livrar da dependência do Crack, por exemplo... É mais fácil se livrar do Crack!

Uma pessoa com dependência psicológica passará por estresse, mal-estar, períodos de intensa ansiedade, terá dificuldades para se concentrar, sentirá um desejo constante e persistente pela fonte do seu vício, sofrerá terríveis problemas com o sono, passará por forte alteração no seu hábito alimentar, ficará inquieta, impaciente, irritada, agressiva e com oscilações no humor se objeto de seu vício estiver ausente de seu horizonte ilusório de controle. Essa relação entre o "objeto" pelo qual o dependente se viciou e ele próprio tem sido confundida com o Amor desde há muito tempo, mas foi nos últimos anos que se tornou uma patologia perigosa para toda a sociedade. Todos lemos ou assistimos todos os dias a notícias informando homicídios e mutilações que levam a alcunha de crimes passionais. Geralmente oriundos de lares ou relações onde nunca se esperava que algo assim pudesse ocorrer devido ao intenso "amor" nutrido pelas vítimas. Digo vítimas no plural por que ambos, o agressor e a agredida (ou vice versa), são vítimas. Tornaram-se vítimas de si mesmas! Aqui estou circundando o fenômeno apenas em termos do amor convencionado, mas isso se estende a tudo, inclusive na amizade!

Quem encontra nesse vício uma compreensão equivocada e lhe empresta o sentido de amor, sente uma sensação de poder, euforia, alegria e relaxamento quando sua muleta psicológica, aparentemente, está em seu domínio, ou seja, sob sua influência. Apenas para deixar mais claro, esse domínio ou influência não necessariamente se aplica ao ato de dominar ou controlar seu objeto! Muitas pessoas sentem a necessidade mesmo é de serem controladas ou influenciadas pelo seu objeto! O que é um estágio mais grave dessa patologia! Mas... Como saber se somos viciados? Simples! Se, devido aos estímulos positivos adquiridos numa relação, nos sentimos forçados a trocar nossas prioridades a fim de reforçar a presença desses estímulos, se esse comportamento cresce em importância para nós de maneira que passamos a nos sentir fisicamente incomodados ao ponto de sofrermos danos em nossa saúde, como depressão devido a ausência do estímulo, estamos viciados!

Por que isso ocorre? Devido ao modo como nosso cérebro funciona! Temos um mecanismo neurológico chamado de Sistema de Recompensa que associa cada uma das situações ou atitudes que nos causam a sensação de prazer e com isso cria-se uma rede de comunicações entre neurônios com a finalidade de encorajar mais e mais a presença dos estímulos que nos causaram essa sensação. Não há absolutamente nada de errado com esse sistema! Ele está presente em quase todas as atividades que empreendemos. Podemos experimentar esse sistema, por exemplo, num encontro de amigos onde se decide promover uma gincana, ou uma competição com a simples finalidade de passar o tempo. Ninguém vai se matar por que perdeu uma partida de Futebol de casados contra solteiros, por exemplo, mas o sistema estará presente naqueles que sagraram-se vitoriosos. O desequilíbrio existe quando o sistema está "desregulado" e o indivíduo não consegue lidar com a ausência da Recompensa!

Isto posto, convenhamos... O amor, tal como estamos acostumados a reconhecer nas telenovelas, nos compartilhamentos em redes sociais, nos livros de ficção e seus derivados, não passa de mais uma DROGA a qual buscamos avidamente nos viciar! Bem diferente daquele outro sentimento, o Amor, há muito excluído das prioridades da vida moderna atolada em tanta tecnologia que mais afasta do que conecta pessoas. O Amor não depende de estímulos e, portanto, está distante da maioria de nós que exige ser estimulado para se DOAR. Para aqueles que desejam ter o Amor em suas vidas fica uma dica: ele deve nascer, ser cultivado e DOADO todos os dias! O Amor nunca estará sujeito a condição de ser correspondido. Ele basta e sobra por si próprio.

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