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Sobre o filme "A Onda" e o deputado Jean Wyllys

Jean Wyllys e o Filme A Onda - Um Asno
Recentemente assisti a um vídeo no Youtube onde o deputado federal Jean Wyllys faz um comentário sobre o filme "A Onda", de 1981, que foi dirigido por Dennis Gansel. Lembro-me perfeitamente desse filme desde que o assisti em sala de aula em meu tempo de Magistério, dez anos depois de seu lançamento. O mais interessante é que o filme baseou-se em uma história real ocorrida na Califórnia em 1967. Por que decidi registrar algo sobre o filme só agora? Justamente por que prestei atenção ao discurso de Wyllys e me recordei da professora de história que o mostrou aos alunos daquele curso. Ela tinha, por assim dizer, inclinações selvagens para a "esquerda" e seu discurso era exatamente o mesmo do deputado. Ou seja, raso, tendencioso e em desacordo com a necessidade de reflexão que o filme exige. Assisti ao filme duas vezes e cada apresentação teve a contaminação pela ótica pessoal do professor em questão. A história representada no filme trata da experiência de um professor que, em certa altura do seu curso, ao falar sobre autocracia, teve a audaciosa ideia de conduzir seus alunos a uma vivência prática que demonstrasse os mecanismos poderosos que levaram Hitler ao poder, sob a aprovação das pessoas, ainda que ele fosse uma tremenda fraude.

Não farei resumo algum do filme e também não irei aprofundar em análise. Ninguém aqui está disposto a debater mesmo! Quem tiver a curiosidade ou não se lembrar da experiência, convém assistir ao filme e refletir sobre o assunto. Há muitos males dentro das salas de aula, mas um dos piores é a falta de reflexão no sentido filosófico da palavra. Geralmente ocorre o mesmo que aconteceu no filme: o professor é eleito o líder e sua opinião, travestida de autoridade e iluminação, suprime o espírito do debate e os alunos elegem o ponto de vista do mestre como uma bússola a orientá-los. Os elementos introduzidos pelo professor da experiência de "A Onda" baseiam-se comodamente em normas de conduta, espírito coletivo e disciplina. Uai! Qual foi o professor que nunca quis desenvolver esses elementos em sua turma? Ou melhor, qual partido político jamais flertou com os mesmos objetivos, sobretudo quanto a conduta e o coletivismo, segundo seu modelo particular? Qual tipo de ideologia atualmente na moda não está modelando os indivíduos para pensar da mesma maneira e a propagar o poder do coletivo como uma unidade, inclusive ameaçando e depreciando os que não pensam do mesmo modo? Existe alguma diferença entre os alunos da experiência com os variados coletivos existentes hoje em dia?

As atitudes violentas e coercivas, típicas de um regime autocrático, sempre estiveram presentes em nossa sociedade, seja em grau menor, a família, como em graus maiores, o grupo de amigos escolhidos, a comunidade local, a igreja, a escola, a empresa, o governo, etc! O mais interessante é que nas palavras de alguns professores que discutem o filme com seus alunos (e também na fala do deputado Jean Wyllys), é que sempre o outro coletivo é o "do mal", sempre são os outros os perseguidores, os intolerantes, os fascistas, os reacionários, etc. Hoje, ainda mais do que no passado, é muito perigoso flertar com essa aberração de nos acharmos razoáveis, enquanto que os outros são os insensatos. Jovens sempre foram descrentes com o futuro (pode acreditar, já fui jovem!), sempre foram automotivados a participar de algo, integrar-se a um modismo que os encante e ter um ideal que confirme sua estrutura ainda não construída. Não percebem os valores como queremos crer que percebem. Nesse caso, na ânsia dos jovens por serem aceitos e por completarem sua identidade, a ideia de integrar um grupo exerce uma atração que é sempre muito explosiva por que lhes fornece a ilusão de um conforto que os entorpece e abstrai suas outras ilusões, diluindo-os, desintegrando-os...

Causa-me preocupação quando um representante do povo que, além disso, também é professor universitário e integrante de um partido radical do socialismo, com ideias também radicais sobre direitos e compensações, esteja afirmando sua leitura sobre o filme para multiplicá-la em mais níveis sociais. Ora! O que é a experiência do socialismo, senão outra "Onda"? O que é o anarquismo? O que é o próprio capitalismo?? Intelectuais querem que sejamos todos intelectuais para sermos livres, lavradores esperam que o mundo todo se faça de lavradores e empreendedores esperam que todos amem o empreendedorismo e o elejam como salvação do mundo. Cada um reflita sobre o seu próprio exemplo, mas, de fato, não podemos ser colmeia, nem tampouco, como os meninos em estado de natureza do livro "O Senhor das Moscas" de Willian Golding. Se eu pudesse sugerir livros para serem discutidos em sala de aula, falaria do Golding, do George Orwell e até de Anthony Burgess, mas isso também é ilusão!

Os livros desses mestres que se traduziram também em filmes também já foram discutidos em sala de aula e a contaminação foi a mesma. Nada de reflexão! Os três escritores se tornaram lendas por causa de suas obras, mas foram bem poucos os que apreciaram e entenderam suas reflexões. Em certas universidades eles servem apenas para comparação e demonstração de como optamos pelo modelo errado, como nos atraímos pelo pior estado... Sempre o melhor é o que não existe! Perdemos uma ótima oportunidade de dar atenção aos eventos da nossa consciência e ao plano das nossas ideias concentrando-nos no nosso próprio processo de entendimento. Se permanecermos assistindo filmes ou lendo livros pra interpretar como estamos certos e os outros errados, continuamos na "onda"... Pior! Uma hora a gente leva um toco!

A ótica de quem sugere a discussão sobre essas obras é muitas vezes vesga e por isso não se persegue o debate exaustivo sobre assunto algum e, muito menos, nos estimula a compreender nossa participação inconsciente no processo. Sempre os exemplos utilizados são associados a grupos ou comportamentos que o sujeito (quem orienta), discorda, segundo sua ótica que pode estar completamente distorcida! O perigo que a experiência ocorrida na Califórnia denuncia encontra-se no fanatismo, seja ele por qual ideia for. O exemplo adotado pode ter sido o Nazismo, o Fascismo, mas bem poderia ser o Liberalismo, ou qualquer visão maravilhosa compartilhada ou almejada por um grupo comum da atualidade. Alguém muito inteligente uma vez afirmou que "o verdadeiro líder é aquele que forma outros líderes e não seguidores". Não é o que se revela nos casos de "Ondas" atuais. Só vemos muitos seguidores e o líder está bem distante de ser uma dessas magnanimidades capaz de reproduzir sua liderança. Mas, no caso da massificação tem problema quando é por causa de um indivíduo ou por uma causa coletiva!

Não precisa necessariamente ser um indivíduo! Pode ser um um comitê, um partido, uma assembleia, etc. A autocracia descreve apenas a concentração ou a distribuição do controle ou do poder de uma entidade que bem pode ser coletiva. Não importa qual grupo, seita, aglomeração, partido, facção, e por aí vai, sempre há uma figura central ou uma ideia cervical que se não dita o modelo, representa o ideal da falange. Se você percebe muito pouco a influência dessa distorção social, comece a observar a sua paixão por determinado tipo de canal de TV, de marca apreciada, de time de futebol, religião que simpatiza e até mesmo o tipo de pessoa com o qual aprecia mais estar próximo. Ficará estarrecido ao notar que são muitas as "ondas" que o seduzem e isso muita gente ignora e até mesmo discorda que seja possível! O filme é na realidade um convite para refletirmos sobre nós mesmos e sobre as escolhas que fazemos. 

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