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Ocupação das Escolas e Reforma do Ensino Médio

Reforma do Ensino Médio - Blog do Asno
Eu mal havia completado meus 15 anos e já havia lido de Dante Alighieri a Bakunin. Me orgulhava por ostentar o visual do movimento Punk e ser contra tudo que eu não conhecia de fato. Embotelhava todas as coisas que ainda me eram desconhecidas no frasco da memória e empregava o mesmo rótulo para explicar a todas. Chamava de Sistema. Um professor de Educação Física fez toda a diferença ao habilidosamente provocar a minha reflexão sobre o que eu acreditava. Seu nome era Marcos Santana Leal e logo de cara ele identificou que eu era uma ameba para esportes coletivos. Mas, me tornou um atleta e um ótimo jogador de Xadrez. É a ele, a um professor de Matemática, Zélio, e outro de Português, Humberto Lubus, todos do Ensino Médio, que agradeço por ter favorecido as bases que mais tarde meu amigo Alcides Fernandes Tavares lapidaria para que eu me tornasse capaz e habilidoso nas minhas competências. Algumas pessoas, professores ou não, podem transformar a vida de outras simplesmente provocando o que há de melhor nelas.
 
Quando o Movimento Passe Livre tomou as ruas de São Paulo em 2013, muitas pessoas eram simpáticas ao que os garotos estavam fazendo, mesmo sem concordar com a pauta. Eu não fui contrário as manifestações, mas contra o modelo escolhido e como estava progredindo. Avisei que daria merda e logo os cadáveres começaram a aparecer. Eu apoio e defendo qualquer tipo de manifestação, inclusive as que discordo integralmente, desde que ocorra segundo o que esta previsto em lei. Dentro da lei já há riscos, imaginem fora! O que muitos professores, massa de manobra de sindicatos parasitas, estão fazendo com os alunos da rede pública é criminoso e os pais precisam se manifestar também. Algo muito pior acontecerá desta vez. É sempre perigoso incendiar a massa, sobretudo quando se trata de uma faixa tão impressionável quanto os adolescentes. Se os professores (e eu sei que não são todos), querem arrebanhar os alunos para sua causa, que o façam de maneira responsável por que cada tragédia irá recair sobre suas consciências. Se discordam do governo e das suas medidas vocês têm o dever de protestarem, mas não mintam e manipulem os alunos para ganhar força contra o adversário. É uma estratégia tola e a sociedade irá repudiar suas ações, tão logo apareçam os resultados negativos.

Os sindicatos dos professores perceberam que suas táticas de greve não conquistam mais a empatia da população e identificaram uma oportunidade explosiva: recrutar os alunos para sua causa. A nova estratégia de facções como a APP-Sindicato do Paraná, a Apeoesp de São Paulo e de outros estados que começam a aderir a tática parece assertiva no início, mas conduzirá a uma tragédia. Professores são capazes de entusiasmar alunos para um determinado propósito, mas não serão capazes de controlar toda uma massa, cujos hormônios estão sendo agitados até adquirir pressão. Quando a garrafa estourar, o estrago será grande. Desta vez não vou gastar meu tempo transcrevendo e comentando o que imbecis como a presidente da APEOESP dizem sobre a MP do Ensino Médio. Abandonei o magistério por causa de gente assim. Me concentrei no texto da Medida Provisória 746/2016 que trata da Reforma do Ensino Médio, parágrafo por parágrafo. Antes de criticar ou apoiar qualquer iniciativa deste ou de qualquer governo, é o mínimo que um cidadão comum precisaria fazer e é responsabilidade de todos o esclarecimento aos demais.

O Senado Federal abriu uma consulta pública e até o momento são 3.369 a favor da MP e 67.989 contra. Qualquer cidadão pode participar votando através desse link. Acham que alguém se deu ao trabalho de ler o documento? É triste constatar que a maior parte das bobagens contra a MP saem da boca de professores. Dizem que a MP 746 irá acabar com a Educação. Não é verdade! Isso já aconteceu! A LDB foi criada em 1996 e ao longo destes 20 anos não atingiu os resultados previstos. A função do Ensino Médio seria a de consolidar e aprofundar os conhecimentos adquiridos no ensino fundamental, bem como formar indivíduos autônomos, capazes de intervir e transformar a própria realidade. Não é o que ocorre e todos nós sabemos disso e compartilhamos a responsabilidade. O currículo do ensino médio é extenso, pouco produtivo e não favorece o desenvolvimento profissional, nem provê autonomia aos jovens.

Atualmente, 41% dos alunos deste ciclo apresentam um desempenho péssimo e a responsabilidade não é só do professor! Para compararmos em termos qualitativos, em 1995, os alunos apresentavam uma proficiência média de 282 pontos em matemática e atualmente o índice é de 267 pontos. Ou seja, o desempenho em matemática neste período caiu 5,3%. Em língua portuguesa, em 1995, era de 290 pontos e agora regredimos para 267. Redução de 8%. Além do estado não garantir o direito ao acesso para estudantes desse ciclo, apenas 58% dos jovens de 15 a 17 anos estão na escola, a qualidade desse ensino tem piorado. Clara demonstração de que é urgente uma reforma. No meu tempo de magistério fiquei entusiasmado com uma experiência de A. S. Neil e sua proposta de liberdade na escola de Summerhill. Um fracasso colossal ainda maior do que a proposta de Jean Piaget, como se evidenciou trinta anos depois. Os alunos que passaram por aquela experiência relataram depois que aquele modelo não favorecia a aprendizagem e não desenvolvia suas habilidades e competências alinhadas ao mundo do trabalho. Exatamente o que ocorre hoje no Brasil. Focamos a formação crítica dos alunos e não os preparamos para a reflexão. Criamos um artefato cronometrado com potencial de deslocamento de ar calculado para produzir danos: uma bomba relógio.

De acordo com dados do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb), que mede a qualidade do ensino no país, o ensino médio é o que está em pior situação quando comparado às séries iniciais e finais da educação fundamental: a meta do ano era de 4,3, mas o índice ficou em 3,7. Apenas 16,5% dos jovens ingressam no ensino superior e 8% cursam uma educação profissional. Estamos produzindo mais desigualdade e mais deficiências no país. Não dá para ficar fora do processo que determina a reforma do Ensino Médio. Não ocupem as escolas! É legítimo que os professores e entidades envolvidas com a educação participem da reforma e tenham voz de autoridade. Mas, a discussão está aberta e não vejo propostas, vejo ocupações. Ocupem as salas dos parlamentares. Transformar uma escola numa arena é perigoso... Para os alunos!! E nós, pais, não apoiaremos os professores que colocarem nossos filhos em risco!

O resumo do resumo da MP 746:
- Amplia a carga horária mínima anual do ensino médio, PROGRESSIVAMENTE, para 1.400 horas - Ou seja, não será de uma única vez por que o estado precisa preparar antes as condições. Atualmente o limite mínimo é de 800 horas divididas em 13 disciplinas para um ano letivo de 200 dias. A experiência do CEFAM mostra que é possível ter o ensino médio em período integral. A aposta aqui poderia favorecer aos próprios professores e é nesse sentido que devem se manifestar para garantir estrutura e condições de trabalho.

- Determina que o ensino de língua portuguesa e matemática será obrigatório nos três anos do ensino médio. - Não há dúvidas quanto a isso! Basta verificar o desempenho nessas disciplinas e o dano monumental que a deficiência causa na vida dos alunos.

- Restringe a obrigatoriedade do ensino da arte e da educação física à educação infantil e ao ensino fundamental, tornando as facultativas no ensino médio. - Também não há o menor prejuízo para os alunos nesta questão, ainda por que Artes e Educação Física poderão ser escolhas no curso superior.

- Torna obrigatório o ensino da língua inglesa a partir do sexto ano do ensino fundamental e nos currículos do ensino médio, facultando neste, o oferecimento de outros idiomas, preferencialmente o espanhol. - Qual é o problema! Não muda muito o que já temos.

A medida ainda está sendo discutida, mas um monte de inescrupulosos a criticam como se não houvesse debate ou consulta à sociedade. Afirmam que a MP "esvazia e empobrece o currículo, ao descartar a obrigatoriedade de disciplinas fundamentais para a formação de nossos jovens, como artes, educação física, filosofia e sociologia, além de indicar a redução do número de aulas de outras disciplinas, como história e geografia". Fundamentais!! Temos um monte de aborrescentes metidos a pensadores que não são capazes de discorrer sobre as próprias ideias (que não são dele!). Somos a rabeira no mundo quando a questão é o esporte por que as aulas de educação física se limitam a jogos medíocres, queimada, capoeira e o famigerado futebol. Cobrem do estado a Ginástica Olímpica, Artística, o Atletismo, etc. Mas nos ginásios apropriados e estruturados para essa finalidade. Os professores dessa matéria são necessários não apenas nisso! Também são contrários à revogação da obrigatoriedade do espanhol no currículo e a implementação de tempo integral nas escolas, porque acreditam que "isso desconsidera a realidade concreta dos estudantes do ensino médio, pois muitos deles são trabalhadores".
 
Criticam também devido a falta de infraestrutura, formatos ultrapassados para aula (lousa, giz e apagador), jornada de trabalho estafante e mal estruturada, falta de condições de trabalho, plano de carreira e salários dignos aos profissionais da educação e tantos outros”. Tem dó!! Se é esse o busílis, não precisam ocupar escolas! Basta participar da elaboração da medida. A discussão está aberta! Por que não propõem para serem incluídas garantias de que a reforma irá contemplar aos professores. Esquece esse negócio de defender Filosofia e Sociologia! Até hoje essas disciplinas só produziram um monte de analfabetos, mas com ideologia e consciência social! A ignorante da presidente da Apeoesp ainda falou uma barbaridade sem tamanho para justificar sua posição: “Temos claro o seguinte: de novo está aqui colocada (sic) o aprofundamento da dualidade histórica entre as escolas para os filhos e filhas da classe trabalhadora e as escolas para os filhos da elite, que vão sempre poder se dar bem na vida. Essa coisa de que é comum para todos não é verdade, é mínimo para os filhos e filhas da classe trabalhadora e máximo para os da elite para continuarem dominando esse país”. Barbaridade! Ela só tem razão numa coisa... Verdade que onde estudam os filhos e filhas daszelite os professores os preparam melhor para serem bem sucedidos financeiramente. Tem menos Marx nestas instituições!
 
Será que essa mulher não tem noção de que da maneira como está o ensino é que fabricamos cada vez mais imbecis para servir aos mais preparados? Levei muito tempo e uma faculdade de Filosofia perdida para me tocar de que são as competências exatas que mais contribuem para a riqueza da nação e, sobretudo, do indivíduo. Sempre existirá o espaço para que o aluno escolha qual deve ser o caminho que irá trilhar, mas o mínimo para vencer ele precisa dominar. Não é estimulando aos alunos a exigirem mais a presença do estado em suas vidas que iremos contribuir para sua autonomia real. Vocês não mudarão o "Sistema" só por que se opõem a ele. Aprendam a entendê-lo para, então, dominá-lo.

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