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A Ilusão da Igualdade e a Superação do Ressentimento como Cura

Igualdade de Oportunidades - Blog do Asno
As emoções e pensamentos causados pelas palavras atingiram uma relevância muito maior do que o significado das próprias palavras.  Isso torna-se negativo à medida em que construímos nossos modelos mentais a partir do que pensamos e toda a nossa experiência de vida é determinada por escolhas e ações movidas por esses padrões que assumimos. Ultimamente o sentido que cada um de nós empregamos às palavras ressoa em cada uma das áreas importantes da nossa existência, tais como, carreira, relacionamentos e, principalmente, nas respostas físicas que recebemos do nosso corpo. Estou falando do nosso estado saudável ou não.

Não foi à toa que Confúcio uma vez sugeriu que uma necessária reforma política saudável seria começarmos a chamar as coisas pelos nomes adequados. Tomemos como exemplo a palavra "igualdade" quando a aplicamos associada ao vocábulo "oportunidade". Qualquer indivíduo que se opor a aplicação da palavra igualdade será logo associado a diversos rótulos negativos, enquanto que aquele que a aplica em seus discursos ganhará sempre a simpatia da audiência. Porém, é muito fácil demonstrar que a igualdade de oportunidades não é algo desejável.

Tomemos a igualdade de oportunidades como maneira de promover a justiça social. A única sociedade igualitária possível seria uma sociedade sem nenhuma oportunidade, ou seja, um mundo sob o totalitarismo. Ignoremos os fatores biológicos, físicos, sociais ou geográficos que causam as pequenas diferenças entre os indivíduos. Esqueçamos a influência dos antecedentes genéticos, familiares e culturais que nos distanciam uns dos outros e que alguns deles são mais ou menos propícios a um melhor aproveitamento da vida em sociedade. Aldous Huxley já flertou com uma ideia semelhante em seu livro "Brave New World".

Não há um meio termo na busca por uma sociedade com igualdade de oportunidades por que sempre alguém estaria afetado por outro. Imagine uma sociedade onde pais não pudessem expressar suas preferências para favorecer aos próprios filhos por que isso implicaria no prejuízo de outras crianças. Imagine, ainda, um indivíduo que reprimisse as próprias paixões, ambições e preferências por que isso afetaria a outros indivíduos. Esses seriam apenas alguns dos patamares que tal sociedade com igualdade de oportunidades alcançaria. Há na internet enorme abundância de textos e imagens que proclamam a justiça social através do simplismo que pode ser conferido numa figura onde três pessoas assistem a um jogo de futebol como abaixo.
Igualdade não significa Justiça - Blog do Asno

É simplista por que não poderia ser escolhido exemplo pior. Tirar as condições ou oportunidades de um para favorecer a outro não é igualdade e muito menos justiça! O grandão poderia escolher dar o seu caixote ao menor por que não necessita dele ou o menor poderia escolher outra coisa que não fosse assistir a um jogo de futebol. Ocorrem avanços justificáveis quanto a justiça social, mas isso nada tem a ver com a igualdade de oportunidades. Há princípios de medição e jurídicos que necessariamente recorrem ao argumento da igualdade, mas, de novo, nada tem a ver com o mantra da igualdade de oportunidades.

Vamos analisar as consequências psicológicas causadas pela perseguição a um ideal inconcebível como a igualdade quanto as oportunidades. É raro encontrar um indivíduo que afirme que sua criação e formação tenham sido tão plenamente satisfatórias que ele nunca tenha sentido ciúme, inveja ou cobiça causados por que outros indivíduos, em um aspecto ou outro, tiveram mais oportunidades que ele. E isso não ocorre por culpa dos outros! Aqui nascem alguns motivos para o ressentimento, algo que difere da indignação justificada por que pode durar por toda nossa vida e sempre busca razões para se alimentar através de experiências que reforcem esse estado mental.

Haverá sempre alguém mais afortunado do que outro indivíduo e isso gera no ressentido um ciclo nocivo de satisfações bizarras, tais como, um sentimento de ser moralmente superior aos outros e a insistência em justificar todas as falhas e sucessos alheios. O grande malefício causado pelo ressentimento é que ele força quase todas as pessoas a focarem sua atenção e energia naquilo que não conseguem realizar e não naquilo que estaria no seu campo de oportunidades. Habilidades e virtudes latentes nesses indivíduos e seus benefícios nunca se manifestam na vida dessas pessoas. Passam tempo demais ressentindo-se ou gastando energia para controlar seu ressentimento que não administram seus próprios potenciais.

Desde que nascemos há uma infinidade de coisas para as quais não fomos equipados ou não nos dispomos a nos equipar. Isso também pode ser evidenciado quando em um diálogo com alguém qualquer onde sugerimos uma solução para um problema que, em nosso ponto de vista, é simples e aquele que nos ouve nos interrompe rapidamente e saca logo uma frase tal como "É fácil para você dizer isso! Você tem um bom emprego... ou conseguiu estudar... ou teve mais oportunidades que eu". Basta perguntar a essa pessoa como ele acredita que você conseguiu o seu emprego, ou sua formação ou qualquer oportunidade que ele venha a destacar e ele retrucará sem refletir: "Você estava no lugar certo, na hora certa, ou nasceu no lugar certo, etc.". Carceragens estão repletas de pessoas ressentidas.

Pessoas são encorajadas a pensar que em um ambiente onde não há igualdade de oportunidades os indivíduos que conquistam certo sucesso mundano o fizeram a partir de privilégios ilícitos. E o que é pior, acreditam que por não terem as mesmas oportunidades estão condenadas a uma situação sem esperança ou, ainda, que devem protestar contra a desigualdade. Sermos desiguais nos favoreceria se focássemos nossa atenção naquilo que nos tornamos únicos. A responsabilidade pelo próprio destino encontra resistência até nas mais preparadas mentes. A pessoa ressentida jamais vê a si própria como agente e sim como vítima das circunstâncias. Logo, uma vítima passiva das circunstâncias requer que as circunstâncias sejam alteradas e é desse modo que o argumento da igualdade ganha prestígio nos discursos.

O argumento da igualdade de oportunidades é tão atraente que podemos compará-lo a uma miragem que nos encanta, mas sempre nos escapa cada vez que nos aproximamos. Para aquele que se considera uma vítima é necessário que alguém realize as tarefas por ele. Porém, não poderá ser um simples indivíduo qualquer. É necessário que seja uma poderosa organização e é desse modo que a burocracia política assume tal papel na defesa dos interesses dos humilhados e não afortunados. Por essa razão políticos psicopatas manejam tão bem o discurso da igualdade de oportunidades. Este estado político faz com que os oprimidos busquem incessantemente nos seus opressores o alívio para a sua opressão.

Criamos uma máquina que se alimenta do fracasso. A busca por tal justiça estará sempre presa a um ciclo de avanço sucedido por dois de retrocessos. Algo que não é possível jamais deveria ser tratado como necessário. Que governo burocrático bastaria para conseguir concentrar todos os anseios e ideais de sua sociedade numa única razão psicológica? Que artifícios teriam de ser engendrados para tal estado de coisas? Ainda não é o suficiente para você se convencer de que não basta consumir as palavras sem antes refletir sobre elas? Não há vitória final contra o ressentimento, mas pode haver uma melhora na qualidade de vida quando trabalhamos a nossa maneira de sentir.

Ressentimento é a ação ou efeito de ressentir, ou seja, sentir novamente. A mágoa, angústia, inveja ou rancor são nuances do ressentimento e a cura definitiva é algo para os iluminados! Porém, a mudança de nossas concepções podem nos libertar dessas algemas mentais e o primeiro passo é não nos permitir crer que a igualdade de oportunidades seja algo nobre e desejável. Focar nossa atenção ao que podemos realizar é muito mais produtivo do que naquilo que não podemos. Temos capacidades, inteligências e vocações diferentes e é com essa riqueza de contrastes que construímos o mundo no qual habitamos desde aquele momento em que deixamos as sombras de nossas cavernas.

Manter a mente sobrecarregada com ressentimento e mágoa equivale a corroer as nossas possibilidades de prosperidade e satisfação com a nossa experiência de vida. Somente a mudança dos nossos modelos mentais pode nos garantir a condição para um perdão definitivo de nós mesmos e dos outros. É mais saudável buscar a harmonia com tudo e todos ao invés de querer provar que sempre temos razão. Há um caminho mais suave para superarmos os danos causados por esses sentimentos destrutivos de nossa evolução, mas para isso vou redigir um outro texto.

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