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Manifesto do Nada na Terra do Nunca. O que achei do livro do Lobão.

Manifesto do Nada na Terra do Nunca - Lobão - Um Asno
O estado natural das coisas é o caos! Postas em movimento elas tendem a harmonia. Minhas ideias com relação ao patológico avanço dos pensamentos que foram importados de uma experiência que jamais deveria ter sido a minha, pois se originaram no fascínio pelo discurso da esquerda, já haviam mudado em 1996. Deixei de ser petista naquele momento, mesmo votando em Lula em 2002. Lobão ainda respiraria aquela atmosfera podre por mais algum tempo. Eu o ouvi muito pouco, preciso ser sincero! Tive apenas dois discos do cantor e raramente tocava-os no meu velho "vinil player" (ainda o tenho!). Quando minha situação financeira desceu a ladeira ultrapassando a linha da miséria tive de me desfazer do meu tesouro (460 discos de vinil) por R$ 200,00 para poder comer, e junto foram os dois discos do Lobão.

Sabia de seus trabalhos pouco conhecidos em outras bandas como baterista e arranjador, mas nunca ouvi outras músicas mais de uma vez, a exceção de Vida louca Vida, Decadence avec Elegance, Rádio Blá, Vida Bandida e Me Chama. Mas, Lobão, nome artístico de João Luiz Woerdenbag Filho, 56, me surpreendeu! Para mim ele se saiu melhor como escritor do que como cantor, compositor, multi-instrumentista, editor de revista e apresentador de televisão. Não li sua autobiografia ainda (o primeiro livro), mas uma entrevista sua me encorajou a ler o último: Manifesto do Nada na Terra do Nunca. É um livro com críticas políticas, artísticas e sociais. Não que o livro tenha me acrescentado informações que eu desconhecesse, mas porque o autor demonstrou uma maturidade e uma visão que eu não esperava ver em seus trabalhos. Vi uma única apresentação sua no tal programa A Liga e outra vez no programa do Danilo Gentili e foi aí que decidi ler o que andava escrevendo.

Achei o livro brilhante! Cômico na dosagem adequada, cáustico no momento propício e provocador durante todo o tempo. Não é um texto linear e alterna vários assuntos que são a praia do autor: música, política e até a Lei Rouanet! Mas, para mim, a melhor sacada foi a "carta" dirigida a Oswald de Andrade e seu Manifesto Antropófago. Juro que tive de reler o referido livro para comparar com as análises de Lobão! O livro foi escrito, visivelmente, com o objetivo de provocar uma discussão sadia. Ele traz duras críticas a figuras dos meios artístico e político do país e é um agradável passeio pela história da música em nosso país. Particularmente, acho que todos os amantes da Semana de Arte de 1922 deveriam estudar este livro. Lobão defende que as ideias propostas naquele período acabaram por moldar todo o pensamento cultural brasileiro até os dias de hoje, influenciando movimentos posteriores, como o cinema novo, o concretismo e a Tropicália. Ele argumenta que a antropofagia, base da Semana de 22, que defendia uma arte brasileira que bebesse das vanguardas estrangeiras, não passava de mero nacionalismo.

Lobão também tratou de casos recentes de nossa política como a Comissão da Verdade (que já escrevi aqui e aqui); sobre Os Racionais e comportamentos que criam novos ódios raciais no país; as ligações obscuras das instituições ligadas a política e cultura (ministério, ECAD, sindicatos, produtoras) e como é distorcido o discurso que chega até o público. Lobão fez o que ninguém do meio artístico tem coragem para fazer em público! Passei a respeitá-lo ainda mais por isso. Atualmente, discordâncias ideológicas são levadas para o lado pessoal e ideias contraditórias, ainda que embasadas em sólidos argumentos, caso não façam parte do pensamento vigente, são descaracterizadas única e simplesmente por ser diferentes. Muita gente vem lutando, cada vez mais, pelo cerceamento das opiniões divergentes, querendo que todos pensem da mesma forma, assistam às mesmas coisas e leiam os mesmos livros. O livro de Lobão é um convite para refletirmos sobre isso. Foi o melhor livro que li neste ano! (até agora).

MANIFESTO DO NADA NA TERRA DO NUNCA, de Lobão, 248 págs, Editora Nova Fronteira – 2013

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