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BEN MENDES | Entre a Verdade e o Espetáculo: Quando a Justiça É Capturada pela Narrativa

Ben Mendes | Blog do Asno
Treze de março não foi apenas mais um dia no calendário. Foi um daqueles marcos silenciosos em que a realidade, já desgastada pelo excesso de versões, cede lugar ao teatro — e, nele, pouco importa quem está certo. Importa quem grita mais alto.

O episódio envolvendo o advogado Benoni Benjamin Cardoso Mendes, conhecido como Ben Mendes, rapidamente deixou de ser um fato para se tornar um campo de batalha simbólico. As imagens circularam com a velocidade típica de uma sociedade que já não busca compreender — apenas reagir. E reagir, quase sempre, com violência.

Não escrevo aqui como defensor de Ben Mendes, apesar de seguir religiosamente a cada uma de suas reportagens e aprendi muito com elas. Ao contrário, tenho divergências claras quanto algumas de suas posições pessoais e, sobretudo, quanto à linha ideológica do grupo político que o orbita, o MBL. Isso já foi exposto de forma transparente neste próprio espaço. Mas há uma diferença abissal — e perigosa — entre discordar de alguém e participar de um linchamento público travestido de justiça moral.

O fato e sua desconstrução

O que se viu nas reportagens e nos recortes que dominaram redes sociais foi um fragmento. Um instante congelado, repetido à exaustão, esvaziado de contexto e inflado de intenção. Um vídeo não conta uma história — ele sugere uma narrativa. E, hoje, quem controla a narrativa controla a reputação.

O episódio, ocorrido em uma loja, envolveu uma discussão que escalou para agressões físicas. Isso, por si só, já é grave. Não há qualquer espaço para relativizar a violência, venha de onde vier. Contudo, a forma como o caso foi explorado revela algo ainda mais preocupante: a seletividade indignada.

Quando a figura envolvida é alguém que desperta rejeição ideológica, o julgamento já está pronto antes mesmo da apuração. A presunção de inocência — esse pilar tão caro ao Estado de Direito — torna-se um detalhe inconveniente.

A imprensa e o peso da responsabilidade

A imprensa tem um papel fundamental: informar, contextualizar e, sobretudo, preservar a integridade dos fatos diante da pressão da opinião pública. No entanto, o que se observa, com frequência crescente, é uma transição sutil — porém devastadora — do jornalismo para o entretenimento.

O caso foi amplamente explorado por veículos relevantes, como reportagens do Metrópoles, Veja, Congresso em Foco e G1, cada qual contribuindo com peças de um mosaico que, ao invés de esclarecer, acabou por alimentar a polarização.

Não se trata de acusar má-fé generalizada, mas de reconhecer que o ambiente atual recompensa o impacto, não a precisão. A manchete que divide engaja mais do que a análise que pondera. E, assim, perde-se o essencial.

O papel das forças de segurança: um sintoma recorrente

Se há algo que me causou ainda mais inquietação neste episódio, foi o comportamento da Polícia Militar de Minas Gerais.

Na semana anterior, já havia manifestado perplexidade diante de uma abordagem da Brigada Militar no Rio Grande do Sul, no caso envolvendo o jornalista Daniel Moretto. Agora, mais uma vez, a atuação policial levanta dúvidas legítimas sobre preparo, proporcionalidade e discernimento. Não se trata de atacar instituições — trata-se de exigir delas o que prometem entregar: equilíbrio, técnica e justiça.

Quando a força substitui o critério, o Estado deixa de ser garantidor de direitos para se tornar agente de tensão. E isso, em uma sociedade já fragmentada, é combustível para o caos.

A guerra que ninguém vence

Talvez o aspecto mais triste — e mais revelador — deste episódio seja o pano de fundo no qual ele se insere: a guerra ideológica que consome o Brasil. Uma guerra curiosa, diga-se. Travada por pessoas que, em muitos casos, mal compreendem os conceitos que defendem com fervor quase religioso. “Esquerda” e “direita” tornaram-se rótulos vazios, usados mais como armas de ataque do que como categorias de pensamento.

E, nesse cenário, figuras públicas deixam de ser pessoas para se tornarem símbolos. E símbolos não são analisados — são destruídos ou idolatrados.

Ben Mendes, ao se declarar pré-candidato ao governo de Minas Gerais, inevitavelmente passou a ocupar esse lugar. E, com isso, tornou-se alvo não apenas de críticas legítimas, mas de uma tentativa clara de desconstrução total. O problema é que, ao fazer isso, destrói-se junto algo muito maior. Por sua posição, o rótulo já veio pronto: cristão antiesquerda. Meu Deus... O que significa quando uma manchete empresta esse destaque a uma matéria jornalística!

Há um dano colateral que poucos estão dispostos a enxergar. O trabalho sério realizado por repórteres que se dedicam a informar o cidadão sobre seus direitos — especialmente nas relações de consumo — acaba sendo contaminado por esse ambiente de hostilidade e desconfiança. Quando tudo vira espetáculo, nada mais é levado a sério. E, nesse ponto, todos perdem.

Perde o cidadão, que deixa de confiar. Perde o profissional sério, que vê seu trabalho desvalorizado. Perde até mesmo a crítica legítima, que se dilui no ruído.

A lucidez se tornou quase um ato de resistência. Defender que os fatos sejam analisados com rigor, que as responsabilidades sejam apuradas com justiça e que as instituições atuem com equilíbrio não deveria ser uma posição controversa. Mas tornou-se.

Quando os Opostos se Tornam Idênticos

Ao longo de treze anos, mantive uma posição firme e inegociável contra aquilo que identifiquei como um comportamento patológico, abusivo e autoritário durante o período em que o Partido dos Trabalhadores ocupou o governo federal. Não se tratava apenas de discordância política. O que me inquietava era o método — o insistente e corrosivo discurso do “nós contra eles”, que não apenas empobrecia o debate público, mas também preparava o terreno para algo ainda mais grave.

Naquele momento, fiz um alerta que muitos consideraram exagerado: ao se construir continuamente a figura de um inimigo absoluto, corre-se o risco de, inevitavelmente, dar vida a esse próprio inimigo. E foi exatamente isso que ocorreu com o surgimento do bolsonarismo. O que deveria ser uma ruptura tornou-se, na prática, uma réplica.

E é aqui que reside a ironia mais amarga de todas: aqueles que se apresentam como antagonistas — esquerda e direita, em suas versões mais ruidosas — passaram a se desqualificar mutuamente com uma intensidade quase ritualística, enquanto reproduzem, com precisão inquietante, os mesmos vícios que afirmam combater. A linguagem é a mesma, a estratégia é a mesma e o método de ataque é o mesmo.

Ambos os lados coisificam o adversário, deslegitimam o direito do outro de existir no debate, substituem argumentos por rótulos e tratam divergência como ameaça. E, nesse processo, deixam de ser opostos para se tornarem reflexos.

Para aqueles que, como eu, jamais se identificaram integralmente com nenhuma dessas correntes, o que se seguiu foi um período prolongado — quase sufocante — de vinte e quatro anos sob a pressão de dois polos que, embora se declarem incompatíveis, operam sob a mesma lógica de intolerância.

Hoje, já não assistimos a manchetes no sentido clássico do jornalismo. O que se vê são narrativas em disputa — versões cuidadosamente moldadas para anular o outro, não para esclarecer os fatos. A verdade deixou de ser um ponto de chegada para se tornar apenas um instrumento.

E, enquanto esse embate estéril se intensifica, a sociedade paga o preço mais alto. Perdemos a capacidade de diálogo, corroemos a confiança nas instituições e, talvez o mais grave, esquecemos por que aceitamos viver sob um Contrato Social. Afinal, a base de qualquer convivência civilizada não está na imposição de uma visão, mas no reconhecimento do direito de coexistência entre visões distintas.

Conservadores autênticos compreendem isso. Lutam para preservar instituições democráticas, não para instrumentalizá-las ou deteriorá-las em nome de projetos de poder. O que se observa, no entanto, desde a ascensão do bolsonarismo — e em resposta a ele — é um movimento contínuo de erosão institucional, impulsionado por ambos os lados, ainda que por caminhos aparentemente distintos.

Não estamos diante de um conflito entre diferentes visões de mundo. Estamos diante de uma disputa entre espelhos — cada qual refletindo, com fidelidade perturbadora, aquilo que afirma combater e, nesse jogo de reflexos, quem desaparece não é o adversário. É o próprio senso de realidade.

Não se trata de absolver ou condenar Ben Mendes. Trata-se de algo mais simples — e, ao mesmo tempo, mais raro: recusar-se a participar de um julgamento apressado. A sociedade que abandona o critério em nome da paixão não constrói justiça. Constrói versões. E versões, como sabemos, são sempre moldadas por quem tem mais interesse — não por quem tem mais razão.

No fim, talvez a pergunta que reste não seja sobre quem estava certo naquela loja, naquele dia 13. Mas sobre o que estamos nos tornando, coletivamente, cada vez que escolhemos o lado mais fácil: o da indignação automática. Porque é no conforto da certeza sem reflexão, que começa toda forma de decadência.

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