O Diesel que Sobe e o País que Afunda: Crônica de um Brasil Mal Refinado
Nos últimos dias, assistimos a uma tentativa reiterada de atribuir a escalada dos preços do diesel a fatores externos: tensões geopolíticas no Oriente Médio, conflitos envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, oscilações no mercado internacional. Nada disso é irrelevante — mas tudo isso é, sobretudo, conveniente. Trata-se de um álibi elegante para desviar o olhar daquilo que realmente fragilizou o Brasil: décadas de decisões equivocadas, planejamento deficiente e, sobretudo, uma gestão marcada por escândalos de corrupção sistêmica. A verdade é menos confortável, porém mais sólida.
Durante os treze anos em que o Partido dos Trabalhadores esteve no poder, o Brasil viveu um ciclo de abundância que poderia ter sido convertido em autonomia energética plena. Possuíamos — e ainda possuímos — reservas expressivas de petróleo. O que nos faltou não foi recurso natural, mas inteligência estratégica. Nosso petróleo é predominantemente pesado, exigindo refinarias com tecnologia específica para transformá-lo em derivados de maior valor agregado, como o diesel. Isso exige investimento, planejamento de longo prazo e, acima de tudo, integridade na execução dos projetos. E foi aqui que a engrenagem falhou.
A Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco, anunciada como símbolo de soberania energética, tornou-se um monumento à ineficiência e à corrupção. Seu custo inicial, estimado em cerca de US$ 2,5 bilhões, ultrapassou a casa dos US$ 18 bilhões e ainda não está em pleno funcionamento. Não se trata de erro técnico — trata-se de um modelo deliberadamente permissivo à dilapidação de recursos públicos.
No Rio de Janeiro, o Complexo Petroquímico do Rio de Janeiro (COMPERJ), outro projeto ambicioso, seguiu trajetória semelhante: atrasos, revisões intermináveis, aumento exponencial de custos e, novamente, o espectro da corrupção pairando sobre cada etapa. Dinheiro abundante desperdiçado.
E como se não bastasse, temos o episódio da refinaria de Pasadena, nos Estados Unidos. Adquirida pela Petrobras em 2006 por um valor considerado muito acima do mercado, tornou-se um dos casos mais emblemáticos de má gestão e decisões questionáveis. Um investimento que, em vez de fortalecer nossa cadeia de refino, drenou recursos preciosos para fora do país.
O resultado de tudo isso é um Brasil que exporta petróleo bruto e importa derivados refinados. Uma contradição estrutural que nos torna reféns do mercado internacional. Quando o preço global sobe, não temos amortecedores internos suficientes. Quando há crises externas, nossa vulnerabilidade se expõe sem qualquer disfarce. E então surge o discurso: a culpa é da guerra, da geopolítica, da privatização da BR Distribuidora.
Mas esta narrativa ignora um ponto crucial: países não se tornam vulneráveis por acaso. Vulnerabilidade é construída — lentamente, sistematicamente — por decisões erradas repetidas ao longo do tempo. A privatização da BR Distribuidora, por exemplo, pode ser debatida sob diversas óticas. Contudo, ela não explica a incapacidade estrutural de refino do Brasil. Esta incapacidade foi gestada muito antes, quando havia recursos abundantes e oportunidades históricas de transformação.
O que vemos hoje é o efeito tardio de um modelo que privilegiou alianças questionáveis em detrimento da eficiência, que confundiu crescimento com expansão desordenada, e que tratou empresas estratégicas como instrumentos políticos. O diesel caro não é apenas consequência de fatores externos. É, sobretudo, a herança de um país que falhou em refinar não apenas seu petróleo, mas suas próprias escolhas.
O Brasil, durante aquele período, acumulou perdas invisíveis — aquelas que não apareciam imediatamente nos relatórios, mas que, inevitavelmente, emergiram com força devastadora anos depois. Hoje, o consumidor paga o preço. O transportador paga o preço. A economia paga o preço. E como em qualquer organização mal gerida, o mais perigoso não é o erro em si, mas a insistência em não reconhecê-lo.
Enquanto o debate permanecer na superfície — atribuindo a terceiros aquilo que foi gestado internamente — continuaremos abastecendo não apenas veículos, mas um ciclo contínuo nocivo de repetição histórica. O diesel sobe. E com ele, sobe também a evidência de que o passado, quando mal resolvido, não passa. Ele apenas aguarda o momento de se manifestar — no preço, na escassez, na dependência. E, sobretudo, na verdade.
E ao final de tudo, resta uma verdade incômoda, porém inevitável: nenhuma estrutura de poder se sustenta sem consentimento. Governos não surgem do acaso. Eles são eleitos, legitimados e, sobretudo, mantidos por escolhas reiteradas — muitas vezes feitas sob o impulso da emoção, da conveniência imediata, da fantasia mítica ou ideológica emais ainda, da memória curta.
O eleitor, portanto, não é um espectador dessa história. É autor. A cada voto negligente, a cada decisão baseada em narrativas superficiais, a cada tolerância silenciosa diante do erro evidente, constrói-se, pouco a pouco, o cenário que hoje se lamenta. Não há preço na bomba que não tenha sido, em alguma medida, precificado antes na urna. O conselho, portanto, não é moral — é estratégico. Não terceirize a responsabilidade que é sua por natureza.
Um país não se transforma por discursos, mas por escolhas conscientes e repetidas ao longo do tempo. E essas escolhas começam muito antes das crises — começam quando ainda parece fácil ignorá-las. Porque no fim, o custo mais alto não é o do diesel. É o da omissão.


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