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ELEIÇÕES 2026: A Janela que Escolhe o que Vemos

Eleições 2026 | Blog do Asno

Houve um tempo em que uma pessoa podia ficar alguns minutos sem fazer absolutamente nada e isso não parecia uma doença. Podia sentar-se diante de uma janela depois do jantar, olhar o movimento das nuvens, acompanhar o desenho lento de uma chuva chegando ou simplesmente levantar os olhos para um céu cheio de estrelas sem sentir que estava desperdiçando alguma coisa. Havia tardes que terminavam sem fotografia, viagens que não eram publicadas, conversas que não precisavam ser registradas e pensamentos que podiam permanecer dentro de alguém durante anos sem encontrar imediatamente uma tela onde fossem transformados em opinião. O silêncio não precisava ser preenchido. O vazio não precisava ser ocupado. Talvez não fosse uma vida melhor, necessariamente, mas havia nela uma coisa que hoje se tornou rara: a possibilidade de permanecer diante de alguma coisa sem exigir dela uma recompensa imediata. E talvez seja justamente aí, nesse pequeno espaço entre o olhar e a pressa, que tenha começado a desaparecer uma parte importante daquilo que chamávamos de pensamento.

Hoje, quando o mundo oferece um céu, oferecemos a ele uma tela. Quando a espera aparece, sacamos o telefone. Quando o elevador demora, quando o semáforo fecha, quando alguém vai ao banheiro, quando a conversa perde intensidade por alguns segundos, a mão procura o aparelho quase sem consultar a consciência. O dedo desliza para cima com a mesma naturalidade com que antigamente os olhos procuravam a paisagem. Uma imagem desaparece e outra vem. Um rosto substitui outro, uma indignação substitui outra, uma notícia substitui outra, uma piada substitui uma tragédia e, antes que qualquer coisa tenha tempo de amadurecer dentro de nós, já estamos diante de outra coisa. Não é necessário transformar o telefone em demônio para perceber o que aconteceu. O problema não está apenas no aparelho, mas na forma como nos acostumamos a viver: saltando de uma coisa para outra, consumindo fragmentos, confundindo movimento com experiência e velocidade com inteligência. A UNESCO, ao tratar da alfabetização midiática e informacional, reconhece justamente a necessidade de desenvolver capacidade crítica para acessar, avaliar e utilizar informação num ambiente marcado por redes sociais, filtragem algorítmica e excesso de conteúdo.

Talvez eu tenha cometido um erro quando comemorei a democratização da internet: imaginei que quanto mais informação recebêssemos, mais esclarecidos nos tornaríamos. Só não percebi que informação não é pensamento, assim como uma despensa cheia de alimentos não significa que alguém tenha feito uma refeição. O pensamento exige outra matéria, uma matéria menos confortável: tempo. Exige permanecer diante de uma ideia que nos incomoda, admitir que podemos estar errados, suportar a companhia de uma pergunta sem resposta imediata. Exige, sobretudo, a capacidade de olhar para alguma coisa que não nos devolva aquilo que desejávamos encontrar. E é justamente essa capacidade que o nosso tempo parece ter dificuldade em suportar. O homem contemporâneo quer a informação, mas frequentemente não quer o intervalo necessário para compreendê-la; quer a opinião, mas nem sempre deseja atravessar o caminho tortuoso que leva até ela. Quer saber o que pensar antes mesmo de ter tempo para pensar.

É nesse ponto que a política entra em nossa sala de estar, não como um corpo estranho, mas como o resultado lógico de tudo aquilo que fizemos com nossa atenção. No próximo dia 4 de outubro, milhões de brasileiros irão às urnas para escolher presidente, governadores, senadores, deputados federais e deputados estaduais. E seria confortável imaginar que, diante de uma responsabilidade dessa dimensão, cada eleitor se recolherá por algumas horas, abrirá os programas de governo, examinará propostas, comparará números, verificará o que é possível, o que é promessa, o que depende do Congresso, o que depende de orçamento, o que já foi tentado e fracassou, o que foi feito e produziu resultados, e então, depois de uma espécie de auditoria da realidade, apertará os botões da urna. Mas sabemos que o ser humano raramente funciona assim. O voto não nasce apenas da razão. Nasce da memória, do medo, da esperança, da raiva, da experiência pessoal, da identificação, da família, do grupo ao qual se pertence e, cada vez mais, daquilo que chega diariamente à pequena tela que carregamos no bolso.

Nesse contexto, uma frase como “aceitar um ladrão para remover outro do governo!” deixa de ser apenas uma frase para justificar um intenção de voto, de conversa de bar ou de discussão familiar e passa a revelar alguma coisa mais profunda sobre o modo como estamos pensando a política. Não importa aqui quem seja o “ladrão” de cada lado, nem interessa transformar a expressão em acusação contra qualquer pessoa. O que importa é a lógica contida nela. Observe a brutal simplicidade da construção: não se trata de perguntar quem apresenta determinado projeto, como pretende executá-lo, quanto custará, quais serão suas consequências ou que instituições precisarão funcionar para que aquilo aconteça. Trata-se de remover alguém. O outro aparece como instrumento. O governo deixa de ser uma construção e passa a ser uma vingança. O voto deixa de responder à pergunta “o que este projeto pretende fazer com o país?” e passa a responder a uma pergunta muito mais primitiva: “quem eu quero que seja derrotado?”

Essa mudança parece pequena, mas não é. Quando a política se transforma em torcida, o adversário deixa de ser um cidadão que pensa diferente e passa a ser uma espécie de ameaça moral. Quando isso acontece, qualquer contradição pode ser perdoada desde que venha do lado "certo" conforme o ponto de vista. A mentira do outro lado é escândalo; a mentira do nosso lado encontra uma explicação. O erro do adversário prova seu caráter; o erro do nosso candidato é atribuído às circunstâncias, à imprensa, ao sistema, à herança recebida, à sabotagem, ao Congresso, ao passado ou a qualquer outra coisa que preserve intacta a imagem que construímos. O indivíduo já não procura a verdade para depois formar sua opinião. Procura primeiro uma opinião que lhe permita conservar a imagem que tem de si mesmo e, só então, começa a procurar as informações que a confirmem.

É uma inversão sinistra e extraordinariamente poderosa. Nós costumávamos olhar o mundo para formar nossas convicções. Agora, muitas vezes, formamos nossas convicções para decidir o que iremos aceitar como mundo.

Imagine um homem vivendo dentro de uma casa cujas janelas nunca mostram a paisagem inteira. Cada janela foi cuidadosamente construída para exibir apenas aquilo que ele gosta de ver. Se gosta de montanhas, aparecem montanhas. Se odeia montanhas, aparecem praias. Se acredita que tudo está indo bem, a janela encontra acontecimentos que confirmam que tudo está indo bem. Se acredita que tudo está perdido, outra janela lhe oferece diariamente novas provas do desastre. O homem passa anos diante dessas janelas e, naturalmente, começa a acreditar que conhece o mundo. Ele conhece a sua janela. Confunde o recorte com a paisagem, o reflexo com a realidade, a repetição com a verdade. Um dia, porém, ele abre a porta e sai. Descobre que havia montanhas atrás das praias, pobreza ao lado da prosperidade, pessoas sensatas no grupo que ele desprezava e pessoas profundamente equivocadas entre aquelas que admirava. Descobre que o mundo era muito maior, mais contraditório e menos confortável do que aquilo que a janela lhe permitia enxergar.

O algoritmo não precisa ser uma conspiração para produzir algo semelhante. Basta que ele aprenda aquilo que nos prende. Se paramos diante de determinada indignação, ele percebe. Se compartilhamos determinado tipo de conteúdo, ele percebe. Se permanecemos mais tempo diante de uma provocação do que diante de uma explicação, ele percebe. E então a janela vai se estreitando sem que ninguém precise fechá-la à força. Recebemos mais daquilo que já demonstramos gostar de receber. Aos poucos, aquilo que deveria ser uma ferramenta de acesso ao mundo passa a funcionar como um espelho sofisticado, inteligente e permanentemente ligado. Olhamos para fora e encontramos, repetidas vezes, a nós mesmos.

Talvez seja por isso que a política contemporânea tenha aprendido tanto com os influenciadores. O candidato percebeu que não precisa necessariamente parecer um estadista; precisa parecer próximo. Não precisa explicar uma realidade complexa em toda a sua extensão; precisa oferecer uma história que caiba no tempo de atenção de quem está assistindo. Não precisa necessariamente conduzir o cidadão pela dificuldade de compreender um problema; pode entregar um culpado, uma promessa, uma frase, um gesto, um inimigo, uma indignação ou uma esperança suficientemente simples para caber na palma da mão. A política, então, começa a adotar a linguagem da influência digital: presença constante, intimidade artificial, frases compartilháveis, emoção instantânea, personagens facilmente identificáveis e uma permanente disputa pela atenção. O candidato se transforma em personagem; o eleitor, em audiência; a campanha, em fluxo de conteúdo.

Uma audiência acostumada a consumir ilusões começa, inevitavelmente, a exigir ilusões também da política.

Porém, nesse ponto o problema deixa de ser apenas eleitoral e passa a ser civilizatório. Porque um povo não se torna mais vulnerável à simplificação apenas porque recebe informações ruins. Torna-se vulnerável quando perde a disposição de permanecer diante de informações difíceis. Uma sociedade que não suporta a complexidade começa a procurar culpados simples para problemas complicados. A inflação precisa ter um único responsável. A violência precisa ter um único responsável. A pobreza precisa ter um único responsável. A corrupção precisa ter um único responsável. O desemprego precisa ter um único responsável. E, quando a realidade insiste em não obedecer a essas explicações, inventamos outra explicação ainda mais simples: alguém está nos enganando.

Assim se forma o círculo da precariedade. Não apenas a precariedade econômica, que é visível na conta que não fecha, no salário que termina antes do mês, na fila, na falta de oportunidade, na dificuldade de acesso a serviços básicos. Existe também uma precariedade intelectual que nasce quando a pessoa se acostuma a receber o mundo já mastigado. Ela deixa de investigar as causas e passa a consumir culpados. Deixa de perguntar como uma política pública funciona e passa a perguntar quem a defende. Deixa de comparar propostas e passa a reconhecer rostos. Deixa de analisar resultados e passa a interpretar tudo como vitória ou derrota do grupo ao qual pertence.

E então o ciclo se fecha: uma população cansada, pressionada, ocupada demais para aprofundar as coisas e permanentemente estimulada por uma avalanche de conteúdo encontra enorme conforto nas explicações fáceis. As explicações fáceis, por sua vez, raramente resolvem problemas difíceis. Os problemas permanecem. A frustração aumenta. A necessidade de encontrar um novo salvador cresce. Surge outro personagem, outra promessa, outra indignação, outro inimigo. E novamente o cidadão deposita sua esperança não em uma compreensão mais profunda da realidade, mas na próxima pessoa capaz de contar uma história convincente sobre ela.

Talvez por isso seja tão perigoso o abandono das pequenas coisas que não parecem ter nenhuma relação com política. Olhar uma nuvem não muda uma eleição, contemplar as estrelas não reduz o preço de uma cesta básica, ficar em silêncio não reforma uma escola e caminhar sem telefone na mão não resolve a violência de uma cidade. Contudo, existe algo nessas atividades aparentemente inúteis que nossa época parece ter esquecido: elas devolvem ao indivíduo a experiência de estar diante de alguma coisa que não foi feita para agradá-lo. A estrela não sabe quem somos. A nuvem não conhece nossas convicções, o vento não confirma nossa ideologia e a árvore não nos entrega uma manchete personalizada. O mundo, quando observado sem a mediação permanente de uma tela, volta a ser estranhamente indiferente às nossas preferências.

É justamente essa indiferença que nos faz bem e nos devolve ao que somos de verdade.

Pensar é, em alguma medida, aceitar ser contrariado pela realidade. É descobrir que aquilo que parecia evidente talvez não seja, permitir que uma ideia estranha atravesse a porta e é ouvir alguém que pensa diferente sem preparar imediatamente uma resposta. É reconhecer que uma pessoa que vota diferente não é necessariamente burra, corrupta, ignorante ou má, assim como alguém que vota como nós não recebe, por esse simples fato, um certificado de virtude. Essa maturidade parece elementar, mas tornou-se difícil porque fomos treinados para reagir antes de compreender.

Talvez o grande drama político do nosso tempo não seja a falta de informação, mas a incapacidade crescente de distinguir informação de conhecimento, conhecimento de compreensão e compreensão de sabedoria. Temos acesso a quase tudo e, ainda assim, podemos permanecer prisioneiros de muito pouco. Conhecemos nomes, frases, escândalos, vídeos, memes, cortes de entrevistas e números isolados e declarações retiradas de seu contexto. Sabemos quem atacou quem às nove da manhã e quem respondeu às nove e quinze. Mas quantos de nós sabemos explicar, sem repetir a frase de alguém, como determinada proposta seria financiada? Quantos conseguimos reconhecer uma boa ideia quando ela vem da pessoa que não gostamos? Quantos somos capazes de admitir que uma medida defendida pelo nosso grupo pode estar errada?

É nesse intervalo entre essas perguntas e as respostas que uma democracia se mede. Não apenas pela urna, mas pela qualidade da consciência que chega até ela porque votar é um ato simples. Pensar antes de votar pode ser extraordinariamente difícil. E talvez seja essa a pergunta que deveríamos levar conosco para a cabine eleitoral neste outubro: não apenas em quem estamos pensando votar, mas o que, dentro de nós, está fazendo essa escolha. É a experiência? É a análise? É a esperança? É o medo? É a memória? É a indignação? É a identificação com alguém que fala como nós? É a vontade de retirar alguém do poder a qualquer custo? É uma proposta que realmente compreendemos ou apenas uma história que nos contaram tantas vezes que passou a parecer verdade?

Existe uma diferença enorme entre escolher uma ideia e escolher aquilo que nos faz sentir seguros e, talvez tenhamos passado tempo demais diante de nossas janelas. Talvez seja hora de abrir a porta, não para descobrir qual lado está certo, mas para descobrir se ainda somos capazes de enxergar um mundo que não foi construído à nossa imagem. 

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