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E SE O PROBLEMA NÃO FOR O OUTRO? | Blog do Asno

Esse é um texto longo porque a reflexão não pode ser superficial...

Uma das maiores contradições do nosso tempo esta no fato de termos alcançado uma capacidade extraordinária de comunicação sem que isso tenha produzido, na mesma proporção, uma capacidade maior de compreensão. Nunca foi tão fácil falar com alguém que está do outro lado do planeta, compartilhar uma ideia em segundos ou ter acesso a uma quantidade praticamente inesgotável de informações, mas, ao mesmo tempo, parece cada vez mais difícil sustentar uma conversa com alguém que pensa diferente de nós sem que a divergência se transforme em hostilidade.

A tecnologia aproximou pessoas, encurtou distâncias e democratizou o acesso à palavra, mas também ampliou aquilo que existe de mais antigo no comportamento humano: a tendência de transformar o diferente ou desconhecido em ameaça. É importante lembrar que a humanidade não construiu a política porque os seres humanos fossem naturalmente inclinados à harmonia. A política nasceu justamente da necessidade de encontrar uma forma de convivência entre pessoas que desejam e acreditam em coisas diferentes, possuem interesses diferentes e, muitas vezes, enxergam o próprio mundo a partir de perspectivas incompatíveis.

Antes da política, a diferença podia ser resolvida pela força e com seu surgimento, tornou-se possível transformá-la em negociação, disputa institucional, construção de acordos e alternância de poder. A política, em sua concepção mais civilizatória, não foi criada para fazer com que todos pensassem da mesma maneira, mas para permitir que pessoas que pensam de maneiras diferentes pudessem continuar vivendo na mesma sociedade.

A criação de leis representa outro passo nessa longa tentativa humana de organizar a convivência. Elas estabelecem limites porque nenhuma sociedade consegue sobreviver quando cada indivíduo ou grupo considera legítimo fazer tudo aquilo que deseja ou acredita ser o melhor excluindo o posto de vista do outro. A liberdade de cada pessoa precisa acolher a liberdade das demais, e é justamente nesse encontro que surgem os conflitos que o direito procura organizar.

As leis não eliminam as diferenças, não tornam as pessoas melhores e tampouco impedem que existam conflitos; sua função é criar parâmetros para que esses conflitos não sejam resolvidos simplesmente pela força, pela vingança ou pela imposição daquele que consegue ser mais poderoso.

Então surgiram as instituições democráticas dentro desse processo histórico como instrumentos destinados a preservar, fiscalizar e aperfeiçoar as regras da convivência. Elas existem porque nenhuma sociedade permanece estática. Os valores mudam, os costumes se transformam, novas tecnologias alteram relações sociais, novas formas de organização econômica aparecem e aquilo que parecia adequado em determinado momento histórico pode deixar de responder às necessidades de uma geração posterior.

A democracia, portanto, não é uma construção acabada, mas um mecanismo permanente de adaptação da vida coletiva. Ela pressupõe conflito, porque sociedades humanas são conflitantes; pressupõe divergência, porque seres humanos são diferentes e, pressupõe limites, porque nenhuma liberdade individual pode significar a destruição da liberdade dos demais.

Justamente por isso que o fenômeno contemporâneo da intolerância é tão preocupante. Não estamos diante simplesmente de uma sociedade dividida por opiniões políticas diferentes. A questão é mais profunda. Estamos testemunhando uma dificuldade crescente de aceitar a própria existência do outro como alguém que possui o direito de pensar, acreditar, amar, escolher e viver de maneira diferente da nossa mesmo dentro dos limites estabelecidos pela própria sociedade e pela lei.

O problema começa quando a diferença deixa de ser compreendida como uma característica inevitável da vida coletiva e passa a ser tratada como uma ameaça que precisa ser combatida. E essa intolerância não pertence exclusivamente a uma determinada ideologia, religião, posição política ou visão de mundo. Ela pode aparecer em qualquer lugar em que alguém esteja convencido de que sua própria maneira de enxergar a realidade lhe concede superioridade moral sobre os demais.

Pode surgir no discurso de quem acredita defender a tradição e também no discurso de quem acredita representar a mudança. Pode aparecer entre aqueles que se identificam com uma determinada religião e entre aqueles que rejeitam qualquer forma de religião. Pode aparecer tanto em grupos politicamente conservadores quanto em grupos progressistas e pode surgir na defesa de um estilo de vida ou na condenação de outro. O que muda são as bandeiras, os argumentos e os símbolos.

O mecanismo psicológico, muitas vezes, permanece assustadoramente semelhante: a transformação daquele que é diferente em algo (não alguém) que merece ser desprezado. É nesse ponto que precisamos prestar atenção a uma das características mais inquietantes do nosso tempo. Os ataques ao estilo de vida, à orientação sexual, às crenças religiosas ou às posições partidárias de outras pessoas não produziram apenas um grande conflito entre lados claramente definidos. Eles ajudaram a multiplicar inúmeras comunidades de pertencimento, cada uma convencida de que precisa se proteger das demais.

Cada grupo desenvolve suas próprias referências, seus próprios símbolos, seus próprios heróis, seus próprios inimigos e, sobretudo, sua própria narrativa sobre quem é responsável pelos problemas do mundo. O resultado é paradoxal: quanto mais grupos surgem reivindicando reconhecimento, mais difícil se torna reconhecer a legitimidade do outro.

Essa intolerância contemporânea tem uma característica particularmente perigosa: ela pode se apresentar como defesa justificada. Quase ninguém se considera intolerante. O intolerante normalmente acredita estar reagindo a uma ameaça, defendendo valores, protegendo sua comunidade, preservando sua identidade ou combatendo uma injustiça. É justamente aí que reside a dificuldade. O ódio raramente se apresenta a si mesmo como ódio; ele costuma vestir a linguagem da proteção, da indignação, da justiça ou da resistência. A pessoa que acredita estar lutando contra aquilo que considera intolerável pode, sem perceber, reproduzir exatamente o comportamento que condena no adversário.

É nesse ambiente que a observação feita por Umberto Eco sobre a internet continua provocando desconforto. Em 2015, ao receber o título de doutor honoris causa em Comunicação e Cultura na Universidade de Turim, Eco afirmou que as redes sociais haviam dado direito de palavra a “legiões de imbecis” que antes falavam apenas no bar e eram rapidamente silenciados pela própria dinâmica social. A frase, deliberadamente provocativa, tornou-se célebre, mas sua ideia central merece ser compreendida para além da provocação.

Eco não estava simplesmente dizendo que determinadas pessoas não deveriam falar. O ponto mais profundo de sua crítica estava na transformação da relação entre opinião e autoridade. Segundo ele, a televisão já havia dado visibilidade ao chamado “idiota da aldeia”, mas a internet teria produzido uma mudança muito maior ao permitir que essa pessoa não apenas falasse para um grupo restrito, mas encontrasse milhões de pessoas dispostas a ouvir, compartilhar e, eventualmente, acreditar naquilo que ela dizia.

Essa diferença é fundamental. A internet não inventou a ignorância, a mentira, o preconceito ou o fanatismo; todas essas coisas são muito mais antigas do que qualquer tecnologia digital. O que a internet fez foi retirar dessas manifestações uma série de barreiras que anteriormente limitavam seu alcance. Uma opinião absurda que décadas atrás talvez permanecesse restrita ao círculo familiar, ao ambiente de trabalho ou à mesa de um bar pode hoje alcançar milhares de pessoas em poucos minutos.

Do mesmo modo, uma informação falsa pode ser compartilhada antes que alguém tenha tempo de verificá-la. Uma acusação pode atingir milhões de indivíduos antes que o acusado sequer descubra que está sendo acusado. Uma frase retirada de contexto pode adquirir uma existência própria e, repetida inúmeras vezes, ganhar a aparência de verdade simplesmente porque se tornou familiar.

O problema, portanto, não está no fato de mais pessoas poderem falar. A possibilidade de falar, discordar, questionar autoridades e participar do debate público é uma das grandes conquistas da democracia. O perigo aparece quando confundimos o direito de expressar uma opinião com a obrigação de considerar essa opinião verdadeira, quando confundimos liberdade de expressão com imunidade à crítica e quando passamos a acreditar que a quantidade de pessoas repetindo uma determinada afirmação é suficiente para transformá-la em fato.

A democracia depende da liberdade de expressão, mas também depende da existência de mecanismos capazes de confrontar afirmações com evidências, argumentos e informações verificáveis. É essa capacidade de confronto que esta se enfraquecendo. Em vez de procurar argumentos para testar nossas convicções, muitas vezes procuramos apenas informações que confirmem aquilo em que já acreditamos.

Em vez de entrar em contato com opiniões diferentes para compreendê-las, procuramos versões caricaturadas delas, porque é muito mais fácil combater uma caricatura do que enfrentar a complexidade do pensamento de alguém que discorda de nós. E, pouco a pouco, o adversário deixa de ser uma pessoa com uma interpretação diferente da realidade e passa a representar uma categoria inteira que acreditamos conhecer antecipadamente.

É assim que nascem as generalizações que alimentam a intolerância. Todo conservador é tratado como retrógrado; todo progressista, como irresponsável; todo religioso, como fanático; todo ateu, como alguém sem valores; todo adversário político, como corrupto ou ignorante e toda pessoa que possui determinado estilo de vida, como representante de uma ameaça aos costumes.

Essas classificações são intelectualmente confortáveis porque eliminam a necessidade de conhecer indivíduos. Se já decidimos antecipadamente o que uma pessoa é apenas porque sabemos a qual grupo ela pertence, não precisamos mais ouvi-la. Basta encaixá-la na categoria correspondente.

O problema é que seres humanos são muito mais complexos do que suas etiquetas. Uma pessoa pode defender uma posição política e discordar profundamente de outras pessoas do mesmo campo. Pode pertencer a uma religião e interpretar sua fé de maneira diferente de outros seguidores. Pode ter um determinado estilo de vida sem desejar que todos os demais vivam da mesma maneira. Pode discordar de uma ideia sem odiar quem a defende. Pode mudar de opinião, pode reconhecer um erro e pode concordar com alguém que normalmente considera seu adversário.

A realidade humana é cheia de contradições e, talvez seja justamente essa complexidade que a intolerância não consiga suportar. A intolerância precisa simplificar o mundo para funcionar. Ela precisa dividir as pessoas entre nós e eles, entre os que merecem confiança e os que não merecem, entre os bons e os maus e entre os esclarecidos e os ignorantes.

Quando essa divisão se torna absoluta, desaparece a possibilidade de diálogo, porque ninguém conversa verdadeiramente com um inimigo. Conversa-se com alguém quando se reconhece nele algum grau de humanidade compartilhada. Quando essa humanidade é negada, o adversário se transforma em coisa e a conversa se transforma em disputa pela eliminação simbólica do outro.

Nesse período conturbado a política começa a perder sua função civilizatória. Se cada eleição for compreendida como uma guerra definitiva entre o bem e o mal, o adversário político deixa de ser alguém que poderá governar amanhã ou voltar a governar depois de amanhã e passa a ser percebido como uma ameaça que precisa ser destruída.

Se cada decisão institucional for interpretada exclusivamente como uma vitória ou uma derrota do nosso grupo, as instituições deixam de ser compreendidas como espaços comuns e passam a ser vistas como instrumentos legítimos apenas quando produzem resultados que nos agradam. A consequência é extremamente perigosa: começamos a defender a democracia somente quando ela confirma aquilo que desejamos.

Porém, a democracia não pode funcionar dessa maneira! Ela não foi criada para garantir que sempre venceremos. Foi criada para que pudéssemos perder sem precisar abandonar a sociedade. Essa é uma das maiores conquistas políticas da humanidade: transformar a derrota em uma condição temporária e não em uma sentença de exclusão. Quem perde uma eleição continua cidadão. Quem pertence à minoria continua tendo direitos. Quem pensa diferente continua fazendo parte da sociedade. Quem critica o governo não deixa, por isso, de pertencer ao país.

Parece óbvio, mas talvez seja justamente aquilo que mais precisamos reaprender. Pois, o óbvio precisa ser dito, repetido e, muitas vezes desenhado!

Uma democracia madura não exige que seus cidadãos concordem sobre tudo. Exige que eles aceitem a existência de regras comuns para administrar aquilo sobre o qual não conseguem concordar. É por isso que as instituições são tão importantes. Elas existem para impedir que cada conflito seja resolvido diretamente pela força das maiorias momentâneas, pela pressão das ruas, pela capacidade de mobilização de grupos organizados ou pela influência daqueles que possuem mais recursos e mais poder.

Quando funcionam adequadamente, as instituições transformam conflitos sociais em processos que podem ser disputados dentro de regras conhecidas. E essas regras, naturalmente, não são perfeitas. Nenhuma instituição humana é. Elas precisam ser aperfeiçoadas, questionadas e adaptadas às circunstâncias históricas. Claro que há uma diferença enorme entre defender a mudança das regras e abandonar a própria ideia de regras.

Uma sociedade pode discordar profundamente sobre como suas instituições deveriam funcionar sem concluir que as instituições deixaram de ser necessárias. E esse é um dos grandes desafios do nosso tempo: recuperar a capacidade de distinguir entre aquilo que precisa ser transformado e aquilo que precisa ser preservado para que a transformação seja possível. Precisamos ser capazes de questionar instituições sem destruir sua legitimidade, criticar leis sem abandonar o princípio de que a convivência precisa de limites e defender nossas convicções sem transformar nossos adversários em inimigos existenciais. 

A intolerância prospera justamente quando essas distinções desaparecem. 

A intolerância cresce quando acreditamos que qualquer pessoa que discorda de nós está necessariamente agindo de má-fé. Cresce quando deixamos de reconhecer mérito em alguém apenas porque pertence ao grupo que rejeitamos. Cresce quando uma informação falsa parece aceitável porque prejudica o nosso adversário. Cresce quando a humilhação de alguém nos proporciona prazer simplesmente porque essa pessoa pertence ao lado que combatemos. E cresce ainda mais quando passamos a considerar que determinadas pessoas, por suas escolhas, crenças ou identidades, merecem menos respeito do que nós.

Nesse estágio, o problema já não é mais apenas político. É civilizatório. Uma sociedade pode sobreviver a grandes divergências políticas. Pode sobreviver a conflitos religiosos, disputas econômicas, mudanças culturais e transformações profundas nos costumes. O que ela dificilmente consegue suportar por muito tempo é a convicção generalizada de que seus próprios cidadãos deixaram de merecer uns dos outros o mínimo de respeito necessário para compartilhar o mesmo espaço.

É por isso que o verdadeiro perigo não se encontra na existência de opiniões extremas, mas na transformação da intolerância em comportamento socialmente aceitável. Ideias podem ser combatidas com outras ideias, argumentos podem ser confrontados, políticas públicas podem ser avaliadas por seus resultados, leis podem ser discutidas e modificadas, governantes podem ser substituídos e instituições podem ser reformadas. O que se torna muito mais difícil de reparar é uma sociedade na qual o desprezo pelo outro passa a ser uma fonte de identidade.

Quando isso acontece, as pessoas já não precisam apenas acreditar em alguma coisa; precisam odiar alguma coisa. O adversário passa a ser necessário para confirmar quem somos. Precisamos dele para definir nossa própria identidade, porque já não sabemos dizer o que somos sem explicar contra quem estamos. E quanto mais forte se torna a necessidade de um inimigo, mais qualquer diferença pode servir para produzi-lo.

A intolerância se tornou tão contagiosa porque ela oferece uma sensação poderosa de pertencimento. Em um mundo complexo, encontrar alguém para culpar simplifica a realidade. Em uma sociedade cheia de incertezas, acreditar que todos os problemas possuem um responsável produz uma falsa sensação de controle. Em um ambiente no qual as pessoas frequentemente se sentem impotentes diante das grandes transformações econômicas, tecnológicas e culturais, encontrar um grupo para responsabilizar pode parecer uma forma de recuperar algum poder.

Mas a simplicidade dessa explicação tem um preço alto: ela transforma seres humanos em símbolos e problemas complexos em inimigos convenientes. É o momento de voltar a uma pergunta que parece elementar, mas que se tornou surpreendentemente difícil: como queremos viver juntos? E isso não se trata de perguntar quem está certo em todas as disputas do nosso tempo, nem de escolher qual grupo possui o monopólio da virtude e, tampouco de imaginar que todas as opiniões têm o mesmo valor ou que todas as posições podem ser conciliadas.

Existem ideias que podem e devem ser combatidas; comportamentos que precisam ser limitados pela lei e injustiças que precisam ser enfrentadas. A convivência democrática não exige neutralidade diante de tudo. Ela exige, porém, que o conflito permaneça submetido a uma concepção mínima de humanidade compartilhada.

Precisamos ser capazes de dizer que determinada ideia está errada sem concluir que seu defensor deixou de ser humano. Precisamos ser capazes de combater uma política sem desejar a destruição de todos que votaram nela, de discordar de uma religião sem transformar seus seguidores em uma massa indistinta e de defender nossos valores sem acreditar que todos aqueles que não compartilham deles constituem uma ameaça. Isso não é fraqueza. É maturidade.

A intolerância frequentemente se apresenta como força porque fala alto, simplifica, acusa e não demonstra dúvida. Mas existe uma forma muito mais difícil de coragem: permanecer firme em nossas convicções sem perder a capacidade de ouvir. Reconhecer que podemos estar errados não significa abandonar nossas ideias. Significa reconhecer que somos humanos e, portanto, falíveis. Admitir que nosso adversário pode ter razão em algum ponto não destrói nossa identidade. Ao contrário, demonstra que nossa identidade não depende da necessidade permanente de estar certo.

A época em que vivemos qualquer pessoa pode transformar indignação em conteúdo, conteúdo em audiência e audiência em influência. Nesse ambiente, a moderação raramente produz a mesma recompensa imediata que o conflito. Uma explicação cuidadosa é menos compartilhável do que uma acusação. Uma análise complexa exige mais atenção do que uma frase provocativa e uma dúvida dificilmente alcança a mesma velocidade de uma certeza absoluta. O ambiente digital favorece a simplificação e a intolerância é uma das formas mais eficientes de simplificar o mundo. Por essa razão precisamos de mais responsabilidade individual.

Não podemos exigir que apenas as instituições sejam responsáveis pela qualidade do debate enquanto continuamos compartilhando tudo aquilo que confirma nossos preconceitos. Não podemos condenar a manipulação da informação e, ao mesmo tempo, aceitar como verdadeira qualquer coisa que favoreça o grupo ao qual pertencemos e não podemos reclamar da polarização enquanto tratamos toda pessoa que discorda de nós como alguém moralmente inferior.

A reconstrução da convivência começa muito antes das grandes reformas institucionais. Ela começa na pequena decisão de não compartilhar uma mentira, evolui na disposição de ouvir uma explicação antes de julgar, avança na coragem de reconhecer que alguém do outro lado pode ter acertado e amadurece quando deixamos de tratar a discordância como uma ofensa pessoal.

Atualmente, a humanidade esta diante de uma escolha histórica que não será decidida apenas em parlamentos, tribunais ou eleições. Ela será decidida também em milhões de pequenas interações entre pessoas que jamais aparecerão nos livros de história, mas que determinarão a qualidade do ambiente social no qual viveremos. Cada conversa pode aprofundar a distância ou reconstruir uma ponte. Cada comentário pode reforçar uma caricatura ou devolver complexidade a alguém. Cada compartilhamento pode alimentar a desinformação ou contribuir para uma cultura de responsabilidade.

O abismo da intolerância, portanto, não surge de repente. Ele é construído lentamente, quase sempre por pequenas concessões. Primeiro aceitamos uma generalização porque ela descreve alguém de quem não gostamos. Depois aceitamos uma mentira porque ela favorece nosso lado. Em seguida toleramos a humilhação de alguém porque acreditamos que essa pessoa merece. Mais tarde justificamos uma agressão verbal porque estamos convencidos de que a causa é justa. Quando percebemos, já não estamos apenas defendendo nossas convicções; estamos defendendo o direito de tratar o outro como alguém que merece menos consideração.

Não precisamos abandonar nossas diferenças para evitar o colapso da civilização. Pelo contrário: precisamos reconhecer que a diferença foi justamente aquilo que tornou necessária a criação da política, das leis e das instituições democráticas e nos proporcionou todo progresso através das eras porque, com isso, aprendemos a agir juntos! Se todos pensássemos da mesma maneira, desejássemos as mesmas coisas, talvez não precisássemos de política e de negociação. Se todos tivéssemos os mesmos valores, talvez não precisássemos de instituições destinadas a mediar conflitos. A diversidade humana não é um defeito acidental que precisamos corrigir; ela é uma condição permanente da nossa existência e que nos favorece no nosso aprimoramento como humanos.

O desafio é aprender novamente a conviver com aquilo que não podemos eliminar e essa seria a grande prova da nossa maturidade como espécie. Saber construir máquinas cada vez mais inteligentes, produzir tecnologias cada vez mais poderosas, colocar mais informação nas mãos de cada indivíduo só demonstra nossa capacidade técnica. A verdadeira medida do nosso desenvolvimento está em algo muito menos espetacular: nossa capacidade de continuar reconhecendo humanidade na pessoa que pensa de maneira completamente diferente de nós.

Se fracassarmos nisso, poderemos ter construído a mais sofisticada tecnologia da história e, ao mesmo tempo, retrocedido em algo muito mais fundamental: a capacidade de viver juntos, conviver!

O futuro da democracia depende de que continuemos aceitando a possibilidade de discordar sem transformar a discordância em uma guerra de extermínio moral e de instituições capazes de adaptar as regras aos novos tempos, bem como de cidadãos dispostos a respeitar essas regras enquanto trabalham para aperfeiçoá-las. Depende também de liberdade de expressão, mas com responsabilidade diante daquilo que colocamos no espaço público. Devemos perseguir e preservar o direito de defender nossas convicções, mas com igual reconhecimento de que o outro possui o mesmo direito.

No fundo, talvez a pergunta mais importante não seja quem vencerá a próxima disputa política, qual grupo terá maior influência ou qual visão de mundo prevalecerá. A pergunta verdadeiramente decisiva é se ainda seremos capazes de permanecer juntos depois que a disputa terminar. Porque eleições passam, governos mudam, leis são reformadas, costumes se transformam e gerações desaparecem. O que permanece é a sociedade que construímos entre uma disputa e outra.

Se cada conflito nos deixa mais incapazes de conversar, se cada diferença produz um novo inimigo e se cada grupo acredita que somente sua própria visão merece espaço, significa que chegamos a um momento em que conquistamos a liberdade de falar, mas perdemos a capacidade de ouvir. Multiplicamos os canais de comunicação destruindo a disposição para dialogar. É uma paradoxal, mas imensamente óbvio que ao concedermos voz a todos, deixamos de construir um espaço comum onde essas vozes pudessem coexistir. Esse é o verdadeiro abismo para o qual caminhamos. Não o abismo criado pela existência das diferenças, mas aquele que surge quando deixamos de aceitar que o diferente também pertence ao mesmo mundo que nós.

A humanidade não precisa se tornar igual para sobreviver. Se abandonarmos nossa arquitetura de convivência porque passamos a considerar o outro indigno de participar dela, estaremos desmontando justamente os instrumentos que nossos antepassados criaram para evitar que nossas diferenças terminassem novamente naquilo que a história conhece tão bem: a imposição da força sobre a razão.

Não posso dizer que alimento a esperança de que ainda haja tempo para escolher outro caminho, mas considero essencial perseguirmos esse objetivo. Não um caminho sem conflitos, porque esse mundo não existe, mas um caminho no qual o conflito continue sendo uma parte da democracia e não sua sentença de morte. Um caminho no qual possamos defender nossas crenças com firmeza, criticar as ideias que consideramos equivocadas, combater injustiças e lutar por mudanças sem precisar negar a dignidade daqueles que estão do outro lado.

No fim, a civilização talvez seja exatamente isso: a capacidade de colocar limites naquilo que sentimos vontade de fazer quando acreditamos ter razão. E, em uma época na qual todos parecem ter encontrado razões para odiar alguém, a maior atitude de resistência seja preservar aquilo que tornou possível nossa vida em sociedade desde o princípio: a disposição de continuar vivendo juntos apesar de nossas diferenças.

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