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O Natal perdeu seu significado original?

Feliz Natal - Um Asno
Como sempre, hoje também estou trabalhando, mas não poderia deixar de enviar minha mensagem de boas festas a todos que amo e isso se estende também aos que não conheço e aos que, por alguma razão, também não gostem de mim. Não tenho dúvidas quanto a quem influenciou para o surgimento do espírito natalino moderno. Foi Charles Dickens com seu livro "Um Conto de Natal", mas não pretendo desperdiçar tempo justificando minha conclusão. Antes de prosseguir devo realizar algumas introduções históricas relevantes. Porque são relevantes? Por que daí derivou o que compreendemos como espírito natalino! Por exemplo: Porque se enfeitam árvores de Natal nesse período? Atribui-se a São Bonifácio, o apóstolo dos germanos ou evangelizador da Alemanha, a origem da árvore de Natal. Foi em 723 que ele acabou causando certo impacto no meio ambiente germânico. São Bonifácio derrubou um enorme carvalho dedicado ao deus Thor, perto da atual cidade de Fritzlar, na Alemanha. Fez isso para convencer o povo e os druidas de que não se tratava de uma árvore sagrada. Na queda o carvalho destruiu tudo que ali se encontrava, menos um pequeno pinheiro. Segundo a tradição, Bonifácio interpretou esse fato casual como um milagre e declarou: “Doravante, nós chamaremos esta árvore de Árvore do Menino Jesus”. Assim, o costume de plantar pequenos pinheiros para celebrar o nascimento de Jesus começou e estendeu-se pela Alemanha e de lá para o mundo.

O presépio foi invenção de São Francisco de Assis na noite de Natal de 1223, na localidade de Greccio, na Itália. Era seu desejo celebrar o Natal da forma mais realista possível e, com a permissão do papa, montou um presépio de palha, com uma imagem do Menino Jesus, da Virgem Maria e de José, juntamente com um boi e um jumento vivos. Nesse cenário, foi celebrada a missa de Natal. O costume espalhou-se pela Europa e de lá pelo mundo. E quanto a data de 25 de Dezembro, como a igreja sabe que foi nesse dia que nasceu o Salvador? Ninguém poderia saber, pois a Bíblia informa onde (Lc 2,4-7), porém não informa quando. Os cristãos queriam uma data para festejar o nascimento de Jesus porque era um aniversário que merecia uma festa. Cada comunidade eclesial o festejava numa data, segundo suas tradições. Na tentativa de unificar a celebração do Natal e rivalizar com as tradições pagãs, no início do século IV, a Igreja Católica já havia fixado o dia 25 de dezembro para festejar o nascimento de Jesus. A Igreja Católica não afirma, nem nunca afirmou, que Jesus nasceu nesse dia. Ela apenas fixou um dia para que os cristãos, na unidade, celebrassem o nascimento de Jesus. A data pegou. Documentos indicam essa data já sendo festejada em Roma no ano 336. Nem vou discutir o mérito de que essa mesma data já era utilizada em festas pagãs, sobretudo em comemoração ao nascimento de Mitra.

E o Papai Noel? De onde surgiu o bom velhinho? Desculpem-me as criancinhas, mas o bom velhinho nasceu em 1822 nas linhas de um poema escrito por Clemente C. Mooreum professor de literatura grega em Nova Iorque. Existiu um personagem real na Turquia, mas foi Moore que criou, para seus seis filhos, a versão de que ele viajava num trenó puxado por renas e ajudou a popularizar outras características como a ideia do velhinho que invadia a casa dos outros pela chaminé e deixava presentes para as crianças que foram boazinhas durante o ano. O poema chama-se Uma visita de São Nicolau”. Originalmente as roupas do bom velhinho pareciam-se com as de um bispo, inspiradas na história do bispo turco, mas mais tarde, o cartunista Thomas Nast, criou uma versão padronizada na revista Harper's Weeklys, em 1886, numa edição especial de Natal. Em alguns lugares na Europa e no Canadá ele ainda é representado com os paramentos eclesiásticos de bispo e, ao invés do gorrinho vermelho, tem uma mitra episcopal.

Um último dado histórico relevante é quanto ao ano de nascimento de Jesus. Um erro de cálculo cinco séculos depois, no ano 520, do que se estabelece na Bíblia como do nascimento do Salvador levou o Papa Hormisdas a estabelecer o ano zero como o do nascimento de Jesus. Sua conclusão encomendada a Dionísio, o Exíguo, o levou a considerar o acontecimento no ano 753 da fundação de Roma, quando na realidade isto teria ocorrido em 748. Se nosso calendário estivesse correto, o Rei Herodes, aquele que os Reis Magos visitaram e que desejava matar Jesus, teria morrido quatro anos antes de Jesus nascer! Por interferência da Igreja Católica no calendário, Jesus acabou nascendo uns anos depois da verdadeira data do seu nascimento! Para historiadores e estudiosos, Jesus nasceu de fato em torno do ano 6 antes de Cristo.

Feita a introdução, passo a uma reflexão contemporânea sobre o sentido dessa época. O período que compreende as festas de fim de ano, sobretudo, o Natal tem muitas singularidades e carrega alguns aspectos, tanto positivos quanto negativos. Quando passo a refletir sobre os aspectos positivos vejo em destaque, entre outras coisas, a valorização da família, da amizade, algumas vezes a reconciliação e a evocação à fraternidade e à prática do que vem a ser institucionalizado como bom. De certo modo, são valores que se evidenciam mais no período natalino e não há como negar que isso seja algo bom. Contudo, há perigo na estrada! Há exatos 13 anos, minha mãe e eu deixamos de comemorar este período devido a uma tragédia que tirou de nosso lar a companhia de meu pai. Isso também me fez refletir sobre outros aspectos que considero negativos e distorcidos. Recentemente ouvi uma discussão iniciada porque alguém havia declinado mais uma vez o convite para festejar todos em uma só casa. Ora, esta pessoa tinha outras razões para não aceitar o convite que não vem ao caso registrar, mas deu uma resposta que enfureceu a outra porque ela considerava o assédio familiar quase como uma imposição apenas pelo fato dela ser cristã. Na realidade, nesse contexto em particular, ela acertou na mosca, mas levantou a fúria da outra pessoa.

A primeira arrematou que ela se sentia muito melhor na época do carnaval do que no período natalino porque naquele outro período as pessoas comemoram a sua maneira sem a perturbar e sem que ela seja forçada a comprometer suas finanças com a desculpa de confraternização. De fato, as palavras dessa pessoa podem parecer duras num primeiro momento, mas ninguém a procura em nenhuma época do ano, senão no período natalino para ajudar nas despesas que tradicionalmente são compartilhadas. Eu ouvi a discussão e conheço muito bem a pessoa que declinou do convite. Sei que ela detesta o Carnaval, mas realmente ela não se incomoda que as outras pessoas o comemorem. Já as comemorações no fim de ano sempre reservam alguns dissabores e inconvenientes quando se reúnem todos sob um mesmo teto com suas hipocrisias ocultas. Aí começam as reflexões negativas!

Segundo o entendimento bíblico e o pensamento corrente das religiões contemporâneas, Jesus, o Salvador, teria vindo para suprir-nos de nossas carências. A salvação, neste caso, é traduzida de maneira muito abrangente sendo empregada também quanto a liberdade daquilo que nos remete a fome, aos perigos, a doença e a angústia da alma. Sendo assim, segundo a fé cristã, a vinda do Salvador teria o propósito de trazer-nos alívio das angústias provocadas pela realidade do pecado. Conclui-se que o Salvador teria vindo para suprir a humanidade de suas carências mais profundas. Se for essa a lógica cristã, então temos uma contradição perigosa, pois durante o período natalino é onde as pessoas tendem a ficar ainda mais carentes. Não precisamos refletir muito para perceber que nessa época se acentuam as carências afetivas, emocionais e, sobretudo, materiais. Em muitas famílias lágrimas vertem-se porque sentem o vazio deixado por aqueles que se foram, outros lamentam porque suas ceias não são fartas, outros ainda lamentam o vazio deixado pelos presentes que não vieram e é assim que ao invés de uma recordação do verdadeiro sentido do nascimento de um Salvador e o sentimento de gratidão pelo que isso deveria significar desaparece. Nossas carências avolumam e distorcem completamente o que deveria significar, ao menos para os cristãos, o Natal.

O objetivo inicial daqueles que institucionalizaram a data do Natal, além de rivalizarem com outras crenças, era o de imunizar as pessoas contra o egoísmo e o orgulho e não para fomentar o comércio. Não discuto se houve ou não um Salvador, se é esta ou não a data de seu nascimento, mas havia um objetivo quando se criou, ao longo do tempo, tal convicção natalina. Quando vemos crescer a hipocrisia, o orgulho e pessoas se considerando melhores do que outras, percebemos que o objetivo inicial frustrou-se. A crítica ainda é maior quando refletimos que aquele objetivo inicial nunca afastou-se dos limites do tempo reservado apenas ao período natalino. Porque sermos solidários e fraternos apenas no final do ano quando sabemos que durante o ano todo fomos mesquinhos, rebeldes, transgressores e privamos de amor, na maioria do tempo, aqueles que desejamos que nos cerquem durante uma ceia de Natal? Porque distribuímos cestas natalinas apenas nesse período, quando sabemos que durante o ano inteiro as pessoas mais carentes precisaram de nossa atenção?

Existe uma ambiguidade nesse período que desintegra toda e qualquer intenção planejada originalmente na mente daqueles que decidiram definir uma data para o espírito natalino. O que temos atualmente é um aumento exagerado do stress que conduz as pessoas de loja em loja numa busca frenética e muitas vezes frustrante, uma multiplicação do ato de presentear inútil e uma banalização dos sentimentos profundos. Ao se determinar uma data, distorceu-se o significado original daquilo que se convencionou ser a razão da vinda do Salvador. Ao menos para os cristãos, o Natal deveria remetê-los a reflexão da sua doutrina e não a esquizofrenia consumista gravada na figura do Papai Noel. Não há dúvidas de que alguém virá com argumentos válidos de que o período natalino trás a preocupação em materializar a amizade e que tal preocupação significa uma atenção aos amigos e parentes. Com justiça, alguém irá me lembrar que o Natal é ainda o tempo do encontro com a família, da celebração, da festa, do viver a alegria, de estar rodeado de amigos e, sobretudo, de recordar as coisas boas. Dirão também que uma ceia partilhada com os vizinhos fortalece nosso espírito e que a falta dessa celebração nos empobrece.

Ora, porque reservar tão escasso tempo para visitar os amigos e parentes comprometendo a qualidade da visita? Porque compensar a amizade com coisas ligeiras e superficiais abandonando sentimentos reais que podem ser extintos com o passar do tempo? É certo que muitos dos valores do Natal cristão continuam a ser vividos, mas é cada vez maior a presença de um outro espírito: o da sociedade de consumo. De modo algum iria eu impor minhas convicções pessoais sobre o Natal as outras pessoas. Apenas teria maior prazer em ver estimulado o espírito natalino em todas as datas do ano. Não vejo mal no ato de presentar alguém de quem gostamos, mas porque uma data específica? Não vejo mal em se ajudar aos mais carentes, mas porque apenas na segunda quinzena de dezembro? Não vejo mal em celebrarmos em grupo, mas porque precisamos de uma desculpa como uma data no calendário?

Concluo, portanto, desejando a todos um feliz Natal e que aquela intenção original que foi se formando com o tempo não se estenda apenas aos cristãos. Espero que todos tenhamos nossa família reunida, os amigos presentes, com uma mesa farta e com todas as prendas que gostaríamos de dar e receber, mas que ampliemos esse período indefinidamente para todos os dias do ano. Que esse período nos supra de nossas carências e que todos venhamos a nos tornarmos instrumentos para suprir as carências também daqueles que não são próximos. Que o espírito de bondade e fraternidade nos acompanhem sempre e que a pureza da igualdade seja sempre a primazia em nossos corações.

Bom Natal a todos!

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