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A divisão do Brasil em ilhas geográficas de pensamento

Manifestação de 15 de Novembro de 2014 - Um Asno
É de lascar! Chega a ser dolorosa, muitas vezes, a obrigação que me imponho de ler o que escrevem os principais formadores de opinião deste pais, tanto governistas quanto oposicionistas. A lista não é pequena: Paulo Moreira Leite, Breno Altman, Paulo Henrique Amorin, Luis Nassif, Miguel do Rosário, Dom Orvandil, Leonardo Boff, Ribamar Fonseca, Davis Sena Filho, Ricardo Noblat, Reinaldo Azevedo, Lauro Jardim, Augusto Nunes, Merval Pereira, Claudio Tognolli, Mary Zaidan, Tânia Fusco, Sérgio Motta, Demétrio Magnoli e por ai vai!! Fora os sites Brasil247, Implicante, Ucho, Repolítica, os canais do Youtube de Lucio Big, Otário Annonimous, João Revolta, Realidade Americana, etc.! Sobram preconceitos em quase todos os comentários e não é difícil encontrar parágrafos com os quais se concorda ou discorda em todos eles! A verdade é que é muito difícil fazer síntese de tudo o que se escreve ou opina sobre a política atual. Ainda assim, dói mais quando percebo o tamanho do equívoco que grandes jornalistas, exímios escritores e profundos representantes do intelecto nacional que teimam na insistência de conduzir o debate por vias completamente diferentes das que o povo de verdade ambiciona!

Isso só demonstra o quanto a leitura da realidade tem sido rasa e o quanto nossos pensadores não têm tido tempo para decompor seu raciocínio antes de passarem a escrever. O Brasil tem produzido ilhas geográficas de pensamento e tais ilhas não respeitam as fronteiras políticas entre os estados. Essas fronteiras vem se desenhando e parecendo cada vez mais com trincheiras intelectuais. Não há nada de errado ou anormal nisso. O problema é a falácia! A falta de foco, a ausência do compromisso com a análise e a contaminação ideológica por transformar em hegemônica nossa forma particular de pensar é que prejudica a evolução do pensamento. Todos cometemos grandes crimes contra a democracia e, por fim, aumentamos o risco contra nossa própria liberdade. Recentemente discuti com meu tio por que ele havia votado na candidata que saiu vitoriosa na última eleição. Calma lá! Não discutimos por que ele escolheu Dilma e não Aécio! Discutimos por que ele escolheu Dilma, mas pelas razões erradas! E, como ele milhões escolheram Dilma ou Aécio, mas, de novo!, pelos motivos errados! Venho pregando a necessidade do debate sadio, o confronto de argumentos e a análise conjunta sob óticas e experiências diversas há mais de quatorze anos e vejo cada vez mais distante essa possibilidade.

Simplesmente não dá! E nem se trata mais de uma guerrinha estúpida entre as facções criminosas denominadas partidos políticos, PT e PSDB! São diversos matizes de pensamento contando a partir de esferas mais radicais de uma linha canhota de pensamento, como a de Luciana Genro, até as menos canhotas e confundidas como destras como a de Fernando Henrique Cardoso. Ora! E o que acontece com aqueles que não são influenciados nem por uma e nem por outra geometria desse caleidoscópio intelectual que se tornou o Brasil? Preconceitos, nada além de preconceitos! Entendo por que a mídia tem ficado distante dos manifestantes que ocuparam a Avenida Paulista recentemente. Trata-se de um reducionismo macabro e intelectualmente criminoso! É tanto absurdo que somos obrigados a ler linhas como estas:

Considero incrível e quase inacreditável que o histerismo político-partidário faz com que indivíduos saiam da realidade e protestem contra a "cubanização", a "venezuelização" do País, bem como a marcarem territórios como se fossem cães hidrofóbicos e, consequentemente, sem condições psíquicas para avaliar de forma ponderada, pontual e lúcida a conjuntura brasileira e suas realidades. (..). Contudo, o visível histerismo e a total rejeição dos fundamentalistas, dos desinformados, dos histéricos de direita, que cooperam para que os interesses do sistema de capitais sejam concretizados se tornaram uma questão preocupante para o Governo Trabalhista, bem como para parte importante e populosa da sociedade brasileira, que acredita no jogo democrático, nos ditames da Constituição e no estado de direito. (...) Trato da classe média que vai às ruas e brada, em catarse mesclada com ódio, por um impeachment, sendo que grupos ainda mais radicais reivindicam, "simplesmente", um golpe militar. Surreal. Um histerismo coletivo de tal monta que deveria ser estudado por psiquiatras experientes, porque, sem exagero, considero que se trata de um surto pós-eleitoral, que atingiu muitas pessoas, que até agora não conseguiram sair desse círculo viciado, bem como não compreenderam os fatos e por causa disso não conseguem digerir as realidades apresentadas a elas, pois que lhes causam frustrações e, consequentemente, dor. (...) Davis Sena Filho

Como é? Histerismo político-partidário? Cães hidrofóbicos? Direita?? Nem esse governo é trabalhista e, tampouco quem se opõe a ele são de direita! Aliás, o volume de pessoas neste país que defende tacitamente valores que, no passado, eram identificados como sendo de direita, não encheriam um ônibus de excursão para Aparecida! Até a maioria absoluta dos que pediam pela intervenção militar (e não eram muitos no total), não estão totalmente alinhados com esses valores! Direta política como um dia existiu já não mais existe em quase nenhum lugar do globo. O que temos são liberais confusos e supostos progressistas mais confusos ainda. Os liberais ainda não compreenderam absolutamente seus próprios princípios e os progressistas não sabem o que fazer com o poder que conseguiram! Agora que os progressistas assumiram o governo descobriram que seu discurso era muito bonito e encantador, mas conciliá-lo com a prática é completamente impossível.

Bem... Eu estava na manifestação! Nem mesmo aqueles que pediam (e tinham o direito de estarem ali também) pela intervenção militar eram todos representantes da "ultradireita" e do "conservadorismo" extremo a que fazem alusão alguns comentaristas. Isso é preconceito que não ajuda a entender a realidade atual do país. No sábado, quando chegamos a Praça da Sé, me lembro muito bem de alguns comentários que ouvi de pessoas que lá já estavam: "Só tô vendo burguês nessa passeata, olha lá, só tem filhinho de papai". De novo! Puro preconceito! O mesmo preconceito que nos faz, cidadãos de bem, injuriarmos outros cidadãos de mesmo nível apenas por ostentar opiniões diferentes. Se pegam pesados os que agora estão começando a ocupar as ruas, também não pegam leve os que nos agridem. Dom Orvandil é mais eloquente: Ratos! Assim somos presenteados por sua brandeza episcopal. Nós, pais, filhos e trabalhadores, não passamos de ratos, segundo a esclarecedora análise que esse gentil senhor fez do movimento de insatisfação que cresce não só entre aqueles que estão começando a ocupar o espaço que antes só pertencia aos Black Blocs e Movimentos Sociais".

Parece que, para alguns, apenas quem se manifesta alinhado a sua leitura da realidade é que tem legitimo direito a manifestação. O verbete "golpe" exagera na aparição entre os parágrafos de certos ilustres. Mas, golpe é o que sofremos através de sua imbecil avaliação do que realmente somos. Fui contra as manifestações de 2013 por que não apoio bagunça e desrespeito as instituições. Fui favorável e estive presente na manifestação de 15 de novembro por que apoio quaisquer manifestações ordeiras e fiéis às suas razões para demostrar sua insatisfação. Acredito que Lobão e Reinaldo Azevedo poderão ajudar muito mais expondo argumentos que convençam aqueles que pedem pela intervenção (mesmo por que isso não irá acontecer de forma nenhuma!), a engrossarem as fileiras dos que pedem por manutenção da democracia do que simplesmente se afastando ou deitando pesadas críticas sobre os mesmo. Ainda voltarei a registrar mais sobre os reflexos deste episódio por que sei que é o assunto predileto de quem discorda do meu direito a livre opinião.

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