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JONES MANOEL | O OLAVO DE CARVALHO DA ESQUERDA

Jones Manoel - Blog do Asno
Quatro anos, para um homem de trinta e seis, não são apenas um intervalo cronológico; são um laboratório silencioso onde convicções deveriam ser destiladas, impurezas intelectuais decantadas e certezas precipitadas submetidas ao ácido da autocrítica. É esse amadurecimento que ainda aguardo do ativista digital Jones Manoel — a quem não reconheço como historiador, apesar do rótulo que lhe atribuem com a mesma generosidade com que se distribuem títulos de nobreza em carnavais ideológicos.

Assisti ao florescimento do olavismo como quem observa um experimento químico instável: primeiro surgem vapores retóricos, depois cristais de convicção absoluta e, por fim, a inevitável explosão quando tais ideias encontram mentes predispostas a confundir eloquência com evidência. O que se seguiu à influência de Olavo de Carvalho demonstrou que fantasias pseudofilosóficas não precisam de provas — apenas de público. E público, como sabemos, jamais faltará em um ambiente onde a internet atua como estufa perfeita para cultivar aquilo que já cresce espontaneamente: a ignorância confiante.

Durante o período de ascensão do bolsonarismo — fenômeno que considerei uma versão intelectualmente subnutrida do próprio olavismo — confesso que experimentei um raro benefício colateral: o algoritmo parecia poupar-me das recomendações de vídeos de Ian Neves e do próprio Jones Manoel. Foi um breve inverno digital. Contudo, o retorno de Luiz Inácio Lula da Silva ao poder trouxe de volta ao meu horizonte virtual ecos familiares, semelhantes ao desconforto auditivo que experimentei ao ouvir, entre 2010 e 2012, exposições de Marilena Chaui, Paulo Ghiraldelli e Vladimir Safatle — pensadores cuja erudição jamais neguei, mas, cujas conclusões frequentemente me pareceram ornamentadas por premissas ideológicas previamente escolhidas.

Por disciplina intelectual, cultivo o hábito de escutar vozes dissonantes das minhas. Não por masoquismo argumentativo, mas porque ideias só revelam sua consistência quando submetidas ao atrito. Nesse percurso, encontro ocasionalmente analistas que me despertam discreta admiração, ainda que algumas de suas teses me pareçam tingidas por um romantismo político que a realidade histórica já tratou de desmentir repetidas vezes. Um exemplo é o canal de Frederico Krepe, cujas análises acompanho com interesse vigilante — concordando aqui, divergindo ali, como convém a quem prefere o pensamento crítico ao conforto tribal. É desse terreno de observação prolongada, ceticismo metodológico e memória histórica que nasce a minha reflexão a seguir.

Há figuras que não são apenas indivíduos; são fenômenos meteorológicos ideológicos. Não caminham: formam frentes frias. Não argumentam: precipitam tempestades. No Brasil contemporâneo, um desses ciclones foi Olavo de Carvalho, cuja influência intelectual sobre parcelas da direita foi tão decisiva quanto um manual de instruções entregue a um exército ansioso por marchar antes mesmo de aprender a ler mapas. Do outro lado do espectro, cresce um personagem que, guardadas as proporções e invertidos os sinais, parece desempenhar papel análogo: Jones Manoel.

Se o primeiro ofereceu à direita um catecismo inflamado, o segundo fornece à esquerda digital uma liturgia de certezas históricas absolutas. Ambos partilham uma virtude retórica e um vício epistemológico: a convicção inabalável. Convicção, quando aliada à prudência, ilumina. Quando casada com simplificação, incendeia. Eis o ponto!! Assisti ao que o olavismo foi capaz de fazer quando encontrou nos vapores difusos da rebelião popular que se inflamou a partir de 2013 contra o petismo a matéria-prima perfeita para sua combustão retórica.

O que era, em essência, um clamor social heterogêneo e difuso foi gradualmente destilado até converter-se em combustível ideológico concentrado... E inflamável. Ainda hoje percebo os efeitos corrosivos desse processo, não apenas nos grandes palcos do debate público, mas infiltrados em gestos cotidianos, conversas domésticas e percepções banais, como um ruído de fundo que se tornou parte da mobília mental coletiva.

Tal fenômeno não prosperou por acaso. Ele foi habilmente explorado por agentes que compreendem com precisão quase laboratorial quando semear narrativas, quanto delas dispersar e onde lançá-las. Esses operadores do imaginário político sabem que o solo digital — esse vasto esgoto algorítmico onde indignação e simplificação se reproduzem com velocidade bacteriana — é terreno fértil para cultivar certezas instantâneas.

E não se limitam a ele! Quando necessário, irrigam também os canais tradicionais de comunicação, onde a aparência de legitimidade muitas vezes funciona como verniz respeitável para teses frágeis. O resultado é um ecossistema intelectual em que emoções são tratadas como evidências, slogans substituem argumentos e suspeitas vestem o traje da lucidez. É nesse ambiente que certas ideias não apenas sobrevivem — florescem.

O sucesso de Olavo consistiu em algo que seus críticos raramente compreenderam: ele não apenas argumentava; ele concedia identidade. Seus seguidores não recebiam apenas ideias; recebiam um espelho onde se viam heróis sitiados por um mundo hostil. Esse mecanismo psicológico é poderoso, antigo e perigosamente eficaz.

Jones Manoel, por sua vez, domina mecanismo semelhante, porém voltado ao público jovem que se sente deslocado num capitalismo tardio, desigual e ansioso. Ele oferece a esses jovens uma chave interpretativa totalizante: a história explicada como luta permanente entre opressores e oprimidos, com roteiro previsível e final redentor. Nada mais sedutor para quem busca clareza em um mundo complexo. Na verdade, ele acerta na mosca! o cenário é altamente favorável a sua presença, principalmente entre os jovens da caluniada e injuriada geração Z.

Ambos, Olavo e Jones, construíram seus discursos sobre recortes seletivos da realidade. O recorte é a tesoura invisível da ideologia: corta fatos inconvenientes, aparando a história até que ela caiba no molde da convicção.

Um exemplo emblemático encontra-se na narrativa recorrente sobre a União Soviética. Certos divulgadores a descrevem como um milagre econômico de meio século, uma epopeia de industrialização heroica que transformou um país agrário em potência científica. A história, porém, é menos um poema épico e mais um romance trágico com notas de contabilidade macabra.

Sim, houve crescimento industrial acelerado. Sim, houve avanços científicos relevantes. Mas houve também decisões estratégicas desastrosas (Holodomor, O ecocídio do Mar de Aral, os Gulags, o Totalitarismo de Stalin, etc.), coletivizações forçadas que devastaram a produção agrícola, repressões políticas que eliminaram quadros técnicos valiosos, planejamento central incapaz de responder a variações reais de demanda e, um aparato estatal que, para sustentar a narrativa de sucesso, precisava frequentemente sacrificar a verdade e, por extensão, vidas humanas.

O progresso existiu, mas foi obtido ao custo de distorções sistêmicas que, acumuladas, contribuíram para o colapso final. Exaltar apenas o crescimento e silenciar o custo humano não é análise histórica; é publicidade póstuma. Minha esperança (vã, eu compreendo), é de que não passe pela cabeça de Jones repetir essa catequese soviética aos nossos futuros gestores e líderes para alcançar o êxito de sua empreitada pessoal. 

Se a esquerda militante possui seus mitos dourados, a direita olavista também cultivou os seus. O professor Olavo frequentemente denunciava conspirações globais monolíticas, atribuía coordenação quase sobrenatural a adversários ideológicos e tratava discordâncias acadêmicas como provas de corrupção intelectual generalizada. Seu estilo retórico, ácido, teatral e combativo era brilhante como espetáculo, mas perigoso como método.

O resultado foi a formação de um público que, em vez de aprender a duvidar, aprendeu a suspeitar. Suspeita permanente não produz pensamento crítico mas sim, uma paranoia metodológica. Assim como a idealização soviética ignora falhas estruturais, o olavismo frequentemente ignorava inconsistências internas de suas próprias teses.

As propostas econômicas defendidas por Jones Manoel e outros influenciadores de linha semelhante frequentemente partem de premissas teóricas que pressupõem um comportamento coletivo disciplinado, cooperativo e institucionalmente estável. Tais modelos poderiam funcionar — ao menos em tese — em sociedades com alto capital social, forte confiança institucional e tradição administrativa rigorosa.

O problema surge quando tais esquemas são transplantados para realidades sociológicas distintas. O Brasil possui características históricas específicas: informalidade estrutural, baixa confiança institucional, tradição patrimonialista e cultura econômica marcada pela adaptação pragmática. Sistemas econômicos altamente centralizados dependem de eficiência burocrática quase cirúrgica. Implantá-los aqui sem considerar essa base cultural seria como instalar um motor de Fórmula 1 em estrada de terra. O projeto não falha por maldade, falha por incompatibilidade.

O fenômeno digital ampliou a velocidade de disseminação dessas narrativas. Figuras como Ian Neves e Jones Manoel dominam a estética didática das redes: vídeos dinâmicos, linguagem acessível, exemplos diretos. A pedagogia é eficiente; o problema é quando a eficiência substitui a complexidade. O jovem espectador, ainda em formação intelectual, recebe respostas antes mesmo de formular perguntas. E respostas prematuras são como diagnósticos dados antes do exame: tranquilizam, mas não curam.

Não falo apenas como observador. Entre os 11 e 14 anos, também fui seduzido por esse tipo de pensamento totalizante. A promessa era irresistível: um sistema que explicava tudo, resolvia tudo e ainda oferecia a sensação moral de estar do lado certo da história. Contudo, o preço foi muito alto. Durante anos, minha capacidade de análise ficou condicionada a esquemas rígidos. Em vez de enxergar a realidade, eu a filtrava. Em vez de compreender, eu classificava. Foram anos intelectualmente atrasados. Anos que poderiam ter sido dedicados à dúvida fértil, não à certeza estéril.

E, no entanto, há uma ironia final que poucos admitem. Democracias saudáveis não se constroem apenas com vozes moderadas; precisam também de extremos visíveis, desde que confinados ao espaço onde a retórica não se converte automaticamente em política pública. O Legislativo é esse lugar. Sempre considerei útil que figuras como Jair Messias Bolsonaro ocupassem cadeiras parlamentares, onde o embate verbal fortalece o debate e obriga o contraditório a se aperfeiçoar e até escrevi sobre isso.

O mesmo raciocínio aplico a influenciadores ideológicos de esquerda: sua presença em assembleias legislativas poderia enriquecer a pluralidade argumentativa. Fiz o mesmo novamente quando defendi a permanência de Glauber Braga no Congresso, apesar de muitas vezes não suportar sua voz. O perigo começa quando personalidades moldadas pela lógica do palanque — e não pela prudência administrativa — ascendem ao Executivo. Governar exige arte distinta de discursar. O orador busca aplausos; o governante precisa de resultados. O primeiro vive de certezas; o segundo sobrevive de dúvidas.

Extremos ideológicos são como tempestades elétricas: assustam, iluminam o céu e lembram aos navegantes que o mar não é domesticável. Personagens como Olavo de Carvalho e Jones Manoel cumprem, cada um a seu modo, essa função atmosférica. São úteis como advertência, não como bússola. Quando a sociedade confunde relâmpago com farol, navega fascinada pela luz errada. E a história, paciente arquivista de equívocos humanos, continua registrando — com ironia silenciosa — quantas vezes trocamos clarão por claridade.

Em ano eleitoral, convém apagar certas luzes — não por prudência institucional, mas para que as mariposas não confundam clarão com direção. Com isso, evidentemente, não proponho apagar luz alguma no sentido literal — ressalva necessária nestes tempos de interpretações apressadas —, mas apenas sugerir, em chave metafórica, que não se lhes conceda luminosidade excessiva, a fim de que tais ideias não prosperem alimentadas pelo próprio brilho que recebem.

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