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Como Prevenir e Enfrentar o Alcoolismo na Adolescência

Prevenir o Alcoolismo na Adolescência - Blog do Asno
Eu sou alcoólatra. Admito isso não porque dou trabalho em festas ou vivo de ressaca agindo de maneira a me envergonhar perante os outros. Pelo contrário, algumas pessoas manifestam até admiração pela minha capacidade de não perder o controle. E isso é ruim! Reconheço muito bem a ilusão que o álcool representa e como nós, os alcoólatras, somos criativos em justificar nosso vício. O meu primeiro porre aconteceu quando eu tinha 13 anos. Depois tive um aos 15 anos e o último ocorreu quando completei 19 anos. Aprendi meu limite físico, mas há 18 anos bebo uma dose de algum destilado todos os dias. Eventualmente seco uma garrafa de Jack Daniels sozinho sem que isso me atrase a qualquer compromisso assumido. Tornou-se uma rotina nociva porque é uma fração de dinheiro importante que poderia ser aplicada em algo muito mais útil.

Um vício leva sempre a outro vício e a conclusão será sempre uma fatalidade. Começamos com algo lícito e socialmente aceito e daí partimos para outras fugas porque não superamos o impulso que nos levou ao primeiro gole. Terminamos a vida bebendo por qualquer razão que nos convenha afirmar a nós mesmos, mas sempre temos nossa iniciação no álcool pela mesma razão. O álcool na adolescência é como um rito de passagem para os mais jovens. É sempre porque, por alguma razão, nos sentimos deslocados em relação ao mundo externo e o desejo de pertencimento, fazer parte de algo ou de um grupo que nos empreste uma identidade, passa a ser uma necessidade prioritária enquanto somos jovens.

O álcool é, de longe, a pior e mais perigosa das drogas já produzidas pelo homem. É responsável por quase 90% das internações em hospitais psiquiátricos e quase 50% dos acidentes entre jovens de 13 a 19 anos. Sem contar os números absurdos de mortes causadas pela inibição da capacidade motora e do afrouxamento das rédeas morais. Essa droga é perigosa por que no primeiro momento ela não causa a dependência física, porém emocional. É perigoso também por que o número de pessoas dependentes dele é muito menor em comparação aos outros tipos de dependência química. Desse modo ele avança lentamente enquanto estamos condicionados apenas a dependência emocional e se torna uma solução ilusória para nosso desajustamento. É aí que o corpo adquire mais resistência a cada consumo e isso muda nosso ponto de tolerância nos levando a consumir volumes maiores.

Não vai demorar e logo estaremos envolvidos pelos seus efeitos e começaremos a tratar nossa abstinência bebendo. Por alguma razão, que ainda procuro conhecer, passei a fazer uso do álcool para me sentir mais sóbrio (sem nenhuma contradição). Acontece que nunca superei meu sentimento de deslocamento em relação ao mundo que me cerca. Não sinto redução na minha capacidade de memória ou raciocínio devido ao uso do álcool, mas não sou estúpido o suficiente para não entender que uma hora ou outra a fatura será debitada. O álcool me levou ao cigarro e é assim que funciona a sua dinâmica. Claro que isso me levaria também a experimentar outros limites e, ainda que não tenha caído na armadilha de outras ilusões químicas, isso não me torna moralmente superior a quaisquer usuários dependentes de alguma solução psicotrópica líquida, sólida ou gasosa.

Por não sentir a diferença que álcool pode representar em minha vida, (além do buraco financeiro) isso torna ainda mais difícil deixar o vício antes que os problemas comecem de fato a se manifestar. Mas tenho um compromisso moral comigo mesmo e um nível de exigência com esse padrão muito intolerante. Macaquinho vê, macaquinho faz... Não é esse o legado que gostaria de deixar e que fosse aprendido pelas minhas filhas ou por aqueles que se aproximam de mim. Socialmente, sei que não haverá alteração alguma na minha vida, já que não faço uso social do álcool. Bebo sempre sozinho e é desse modo que consigo me integrar (a mim mesmo). Não serei menos chato ou mais descolado para ninguém. Já sou muito chato e nada descolado e, principalmente, estou cagando para fazer as coisas segundo o que os outros esperariam de mim.

Paro de beber por que é o melhor para minhas filhas. Se um pai quer realmente prevenir ou impedir que seus filhos se afoguem no oceano de ilusão etílico, devem nunca se aproximar de uma garrafa de álcool. Para concluir, nenhuma guerra emocional ou punição será capaz de afastar um jovem de uma atraente garrafa envolta numa nuvem mágica de gargalhadas e felicidade líquida. O diálogo e o entendimento para ajudar aos mais jovens na sua luta contra o sentimento de desencontro com o mundo ainda é a melhor receita para afastá-lo da garrafinha mágica.

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