Observatório Social de Birigui

Últimos Artigos
recent

Vereador de Birigui divulga Fake News durante sessão


No último mês viralizou através do Faciobuquio um vídeo asqueroso, fruto do mais medíocre jornalismo, onde se exalta os supostos resultados do controverso Tratamento Precoce contra a COVID-19, francamente patrocinado pelo governo federal. Até aí tudo bem, redes sociais servem para isso mesmo e, como não sou consumidor, não me sinto afetado. Porém, durante o uso do Tema Livre ocorrido na 8ª Sessão Ordinária da Câmara Municipal de Birigui, exibida no último dia 06/04/21, o vereador Marcos Antônio Santos (PSL), o Marcos da Ripada, divulgou esse vídeo durante a transmissão para reforçar os argumentos favoráveis ao famigerado tratamento precoce.  O edil ainda enfatizou que, no Brasil, cerca de 40 municípios adotam o referido tratamento com eficácia. Claro! Em um universo de 5.665 municípios é compreensível que exista um porcentual, ainda que mínimo, de prefeitos retardados que administrem suas cidades como uma horta de maconha. Só que é falso!

No vídeo, supostamente, a cidade de Rancho Queimado-SC não teria nenhum óbito pela doença devido a posição de sua prefeita, Cleici Veronezi (MDB), que preferiu adotar o tratamento precoce com Hidroxicloroquina, Ivermectina, Nitazoxanida, Azitromicina, além da vitamina D e do Zinco, ao invés das restrições comumente adotadas na maioria dos municípios brasileiros. O próprio Facebook marcou o vídeo como FALSO! Primeiro porque, de acordo com bases de dados do governo do estado e do SUS, a cidade contabilizava três óbitos e mais de 380 casos da infecção desde o início da pandemia. Ou seja, segundo dados oficiais do governo de Santa Catarina e do SUS, três pessoas morreram na cidade em decorrência da infecção, embora a cidade divulgue apenas dois porque no dia  12 de março a secretaria de Saúde do Estado removeu uma das mortes oficiais de Rancho Queimado repassando a Florianópolis. Se o vereador tivesse pesquisado veria que no próprio site oficial do município de Rancho Queimado são disponibilizados os resultados, conforme a imagem abaixo:

COVID em Rancho Queimado - Blog do Asno

Rancho Queimado não desfruta de nenhuma condição privilegiada! Do início da pandemia até 30 de dezembro de 2020 o município contabilizou 183 casos de infecção pelo Sars-Cov-2. Porém, somente entre 4 de janeiro e 8 de março a cidade já soma 150 novos casos, ou seja, 82% de todo o ano passado. Péra! Pode ser que alguém desatento considere esses números muito inexpressivos! Acontece que, embora, no vídeo seja informado que Rancho Queimado tem 6.000 ou 7.000 habitantes, na verdade o município catarinense possui pouco menos de 2.900 habitantes. Se compararmos o número de casos do município aos das cidades vizinhas a ele (Águas Mornas, Alfredo Wagner, Angelina, Anitápolis, Leoberto Leal e São Pedro de Alcântara) é possível concluir que Rancho Queimado é a que tem maior número de casos e óbitos de Covid-19, considerando a média da população. Se ainda esta difícil entender eu desenho! Próximo ao município de Birigui existe uma cidade com dimensões semelhantes a Rancho Queimado. Trata-se do município de Lourdes que possui pouco mais de 2.500 habitantes e exporta mão de obra para Birigui. Lourdes também divulga seus resultados em seu site e vejam abaixo seus resultados:

Acontece que a prefeitura de Lourdes não está receitando Cloroquina! O problema com a atitude do vereador biriguiense e mais uma penca de equivocados é que isso se multiplica. Eu tenho um grande amigo que está convicto de que ele e seus familiares foram curados e protegidos devido ao uso do Kit COVID receitado por médico local. Como a letalidade da doença não é tão alta é impossível, sem os testes específicos e controlados, determinar o que cura as pessoas. Tenho outro amigo que se recuperou da COVID administrando apenas o Tamiflu e a Azitromicina. Este último sendo um antiviral, não vejo porque seu uso não seria recomendado. Porém, sua eficácia apenas se verificou in vitro e não nos doentes de fato. Mas, qual é o problema em exercermos nossa liberdade para escolher o tratamento que seja mais conveniente a nossas convicções ou a de médicos que, não tendo outra forma de tratar, optam por oferecer os coquetéis de remédios à sua disposição?

O problema é que as notificações por efeitos adversos decorrentes do uso de medicamentos do  "kit Covid" em 2020 dispararam na comparação com o ano anterior. Ao menos nove mortes foram notificadas, todas após março de 2020, depois do início da epidemia de Covid-19 no país. No caso da Cloroquina, medicamento recomendado pelo presidente messias, o aumento nas notificações por efeitos adversos foi de 558%. Os dados podem ser consultados diretamente no Painel de Notificações de Farmacovigilância mantido pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Esse painel da Anvisa mostra 16 notificações de pacientes prejudicados no ano passado após uso da medicação que integra o Kit Covid, apenas no estado do Ceará que é o quarto maior número do Brasil. O Ceará perde em quantidade de registros para o Amazonas (636), São Paulo (73) e Rio de Janeiro (18). Contudo, das 16 notificações cearenses, 13 constam no painel como “recuperadas/resolvidas”. O desfecho das três restantes não é informado. Se incluirmos os outros dois medicamentos do “Kit Covid”, a Azitromicina e a Ivermectina, o número de reações adversas suspeitas no Ceará sobe para 25, entre março passado e este mês – oito delas após uso do antibiótico, e uma após o antiparasitário.

Esses números eram inexistentes entre 2018, primeiro ano disponível no painel, e fevereiro de 2020, último mês antes da pandemia no Ceará, ou seja, não havia registro de reação adversa à cloroquina e à Hidroxicloroquina no Estado. No mesmo período, dois casos de eventos ligados à Azitromicina foram contabilizados, ambos em 2019. Entre os eventos adversos supostamente ligados ao uso da Cloroquina e da Hidroxicloroquina e notificados no Painel da Anvisa estão distúrbios gastrointestinais, cutâneos, oculares, respiratórios, musculares e no sistema nervoso. Se não bastasse o crescimento alarmante dos registros de reações adversas do uso desses medicamentos que não seja para as finalidades para as quais foram desenvolvidos, a farmacêutica estadunidense Merck Sharp&Dohme (MSD), responsável pela fabricação da Ivermectina, publicou um comunicado em 4 de fevereiro afirmando que os dados disponíveis não apontam a eficácia do medicamento contra a Covid-19. No mesmo sentido, a Apsen, fabricante da Hidroxicloroquina, recomendou que a utilização do medicamento apenas nas indicações previstas em bulas, as quais são aprovadas pela Anvisa, refutando sua recomendação para a COVID-19, com base nas evidências científicas. Basta visitar os sites dos próprios traficantes, digo, fabricantes, pô!

Mas o problema real é que ler dói... Em algumas pessoas, depois do advento das redes sociais, deve causar até câimbras no cérebro. Ninguém mais se dá ao trabalho de questionar as informações que chegam para si. Não me preocupa o número de preguiçosos que preferem conduzir suas vidas a partir das desinformações veiculadas através do Facebook e WhatsApp, mas quando se trata de um representante legítimo que tem a responsabilidade de legislar para o município, isso é grave porque tal atitude revela o quanto suas propostas boas podem vir a ser contaminadas por uma convicção equivocada.

Na verdade não existe um kit milagroso que se mostre eficaz contra a COVID. O que existem são inúmeras tentativas desesperadas para se encontrar algum remédio que ajude no combate a pandemia. Por mais bem intencionado que seja o vereador, é melhor que deixe o campo da ciência para os cientistas e se dedique a aprender como elaborar projetos de lei apropriados ao seu município. Além do mais, mesmo após um ano desde o início da apologia a Cloroquina e o seu uso indiscriminado por vasta porção da população, a pandemia continua atropelando as convicções e os números só pioraram.

Se for pra ficarmos no campo da convicção, a minha é a de que essa doença matará 2% da população, independente dos tratamentos que possamos administrar contra ela. E, sinceramente, continuo a afirmar que, no meu ponto de vista, não alimento receio contra esse vírus para efeitos de uma tragédia maior do que essa porcentagem... Apesar de esta pandemia ser uma imensa desgraça para a humanidade e revelar o quanto não aprendemos com nossos próprios erros, acredito que em poucos anos o vírus será como o Influenza para o ser humano. Tenho medo é do neto dele!

Nenhum comentário:

1 - Qualquer pessoa pode comentar no Blog “Um Asno”, desde que identifique-se com nome e e-mail.
a) Em hipótese alguma serão aceitos comentários anônimos.
b) Não me oponho quanto à reprodução do conteúdo, mas, por uma questão de responsabilidade quanto ao que escrevo, faço questão que a fonte seja citada.

2— Não serão aceitos no Blog “Um Asno” os comentários que:
1. Configurem qualquer tipo de crime de acordo com as leis do país;
2. Forem escritos em caixa alta (letras maiúsculas);
3. Estejam repetidos na mesma ou em notas diferentes;
4. Contenham insultos, agressões, ofensas e baixarias;
5. Reproduzam na íntegra notícias divulgadas em outros meios de comunicação;
6. Contenham links de qualquer espécie fora do contexto do artigo comentado;
7. Contenham qualquer tipo de material publicitário ou de merchandising, pessoal ou em benefício de terceiros.

Tecnologia do Blogger.