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Reservas Indígenas: Propaganda Ideológica X Realidade

Integrantes da Tribo Indígena Xapecó - Um Asno
Esta semana conversei com um professor de história sobre a questão das reservas indígenas no Brasil e para meu espanto percebi que ele estava mais desinformado do que os alunos que le pretende doutrinar com sua ideologia. Em 1994 tive uma das mais edificantes experiências ao entrevistar o líder de uma aldeia Kaigang. Proseamos muito sobre diversos assuntos e fiquei fascinado com sua sensatez e lucidez sobre política e, sobretudo, religião. Aprendi muito com ele e sua cultura. Nada tratamos sobre terras. Em 2009 tive uma alegria e uma das maiores decepções em visita a duas aldeias indígenas, principalmente no norte de Santa Catarina. Leiam primeiro o que informa Matheus Leitão na Folha. Concluo depois:
*Os índios brasileiros estão integrados ao modo de vida urbano. Televisão, DVD, geladeira, fogão a gás e celulares são bens de consumo que já foram incorporados à rotina de muitas aldeias. A formação universitária é um sonho da maioria deles. Pesquisa inédita do Datafolha, encomendada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), revela esse perfil. Entre os dias 7 de junho e 11 de julho, foram realizadas 1.222 entrevistas, em 32 aldeias com cem habitantes ou mais, em todas as regiões do país.Segundo a pesquisa, 63% dos índios têm televisão, 37% têm aparelho de DVD e 51%, geladeira, 66% usam o próprio fogão a gás e 36% já ligam do próprio celular. Só 11% dos índios, no entanto, têm acesso à internet e apenas 6% são donos de um computador. O rádio é usado por 40% dos entrevistados. Para o Cimi (Conselho Indigenista Missionário), “é evidente que essa novidade produz mudanças, mas isso não significa a instalação de um conflito cultural. Não é o fato de adquirir uma TV ou portar um celular que fará alguém ser menos indígena”.(…)Questionados sobre o principal problema enfrentado no Brasil, 29% dos entrevistados apontaram as dificuldades de acesso à saúde. A situação territorial ficou em segundo lugar (24%), seguida da discriminação (16%), do acesso à educação (12%) e do emprego (9%). Em relação ao principal problema enfrentado na vida pessoal, a saúde permaneceu em primeiro lugar para 30%. O emprego apareceu em segundo, com 16%, seguido de saneamento (16%). A questão territorial, nesse caso, desaparece.A pesquisa mostra que o aumento de fontes de informação tem influenciado a vida familiar dos índios: 55% conhecem e 32% usam métodos anticoncepcionais como camisinha e pílula. Mais de 80% ouviram falar da Aids. A maioria dos índios (67%) gostaria de ter uma formação universitária. Apesar de ser considerado muito importante para 79% dos entrevistados, o banheiro em casa só existe para 18% deles.

Bolsa família e cesta básica - A pesquisa sobre o perfil indígena feita pelo Datafolha, encomendada pela Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), revela que 64% dos índios são beneficiários do Programa Bolsa Família, recebendo em média R$ 153 por mês. A região Nordeste é a campeã do benefício: 76% dos índios recebem o programa social do governo. O Sul aparece em segundo com 71%; seguido do Centro-Oeste (63%), Norte (56%) e Sudeste (52%).Mesmo com os benefícios, 36% afirmam ser insuficiente a quantidade de comida que consomem. A maioria dos índios (76%) bebe água que não é filtrada nem fervida. As doenças infectocontagiosas atingem 68% e os problemas estomacais, como diarreia e vômito, 45%. Os índios também afirmam que luz elétrica, água encanada, rede de esgoto e casa de alvenaria são muito importantes para eles.Mais de 70% dos índios ouvidos atribuem muita relevância à atuação da Funai (Fundação Nacional do Índio) na sua aldeia. No entanto, 39% reprovam o desempenho do órgão, avaliando-o como ruim ou péssimo.

Cesta básica - Quase metade dos entrevistados (46%) relatou receber cesta básica da Funai ou da Funasa (Fundação Nacional da Saúde). Os índios da região Nordeste são os que mais recebem o benefício: 79%. Na região Norte apenas 7% ganham a cesta básica.O acesso ao atendimento médico é considerado difícil por 63% dos índios; 69% deles foram atendidos em postos de saúde dentro da aldeia e 12% dentro de casa. Eles ainda usam mais os remédios naturais (66%) do que os farmacêuticos (34%). A maioria dos índios (66%) sabe ler, e 65% sabem escrever na língua portuguesa. Segundo a pesquisa, 30% exercem trabalho remunerado, mas somente 7% têm carteira assinada.A agricultura é exercida por 94%, e 85% praticam a caça; 57% deles consideram que o tamanho das terras onde vivem é menor do que o necessário. Os índios também citaram algumas medidas governamentais que poderiam melhorar a vida dos indígenas no país: intervenções na área da saúde (25%), demarcação de terras (17%), reconhecimento dos direitos indígenas (16%), investimentos públicos (15%) e educação (15%).Procurada anteontem, a Funai afirmou, pela assessoria de imprensa, que tinha muitas demandas e que não poderia responder às questões da reportagem até o encerramento desta edição. “A presidente [Marta Azevedo] está em viagem, sem disponibilidade de agenda. Ela seria a pessoa mais indicada para comentar a pesquisa”, afirmou, por e-mail.(…)
Minha Vez...
A questão indígena jamais pode ser analisada genericamente. Cada caso, cada tribo, cada história deve ser analisada com critérios e argumentos específicos. Recomendo a leitura do livro "Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil" de Leandro Narloch antes de mergulharem no ativismo desmedido ou meramente oportunista de alguns. Para entender a questão das reservas indígenas é preciso ir além do discurso ideológico de ONGs e ativistas apaixonados por si mesmos. É preciso pesquisar profundamente os documentos históricos e a própria história do índio. O maior problema enfrentado pelos jesuítas ao tentar evangelizar os índios foi justamente o gosto que eles tinham por integrar-se aos brancos e seus costumes mais nocivos aos olhos da igreja. A maioria dos índios deseja e procura integrar-se na cultura daqueles que figuram como seus maiores algozes e fazer bom uso das coisas que filtram. Muita correção deveria ser feita na história oficial do Brasil, sobretudo no que diz respeito aos índios.

Em 2009 conheci a reserva Tarumã, em Santa Catarina, com 11 índios e uma área de 21,7 quilômetros quadrados. Lá o cacique Aristides da Silva, então com 74 anos, não aceitava que os índios se casassem com brancos e repudiava as casas de alvenaria. Como muitos casos de reservas atuais, pouco se produz e quase nada se caça. Um enorme contraste com a Reserva Indígena Xapecó, cuja área ocupa partes dos municípios de Ipuaçu e Entre Rios, distante cerca de 30 km de Xanxerê. Esta reserva é a maior do sul do Brasil e é habitada por cerca de 760 famílias de índios das etnias guarani e kaigang. Nesta reserva, os índios vivem da agricultura de soja, milho e feijão, além da venda de produtos artesanais. Na sede da reserva, localizada no município de Ipuaçu, existe uma escola de ensino fundamental e médio em forma de oca e um ginásio de esportes em forma de tatu.
Ginásio de Esportes da Tribo Indígena Xapecó - Um Asno
Ginásio em forma de tatu na sede da Reserva Indígena Xapecó 
Escola da Tribo Indígena Xapecó - Um Asno
Escola em forma de oca na sede da Reserva Indígena Xapecó
Mas a maioria das reservas não se desenvolve assim e menos ainda, se valoriza a cultura indígena em si. As reservas indígenas brasileiras ocupam 13% do território nacional, mas o problema não reside no número. Supõe-se que os espaços economicamente viáveis em torno das comunidades são essenciais para a preservação da cultura indígena, prega-se a integração com a natureza, transformam-se os índios em grandes ecologistas, mas se sustenta o desenvolvimento da maioria deles com Bolsa Família e cesta básica, cedidos pela civilização egoísta e exploradora. Com as terras de que dispõem, os índios poderiam produzir comida para os seus e até para outros brasileiros, mas grande parte, em vez disso, está na fila do Bolsa Família e da cesta básica. Ainda existem as pilantragens ideológicas de alguns caciques e as tribos mais comprometidas com sua cultura acabam pagando sendo desprezadas quando o assunto é mais grave, como os Kaiowá do Mato Grosso do Sul que recentemente ameaçaram até um suicídio coletivo.

Estou convencido de que a sociedade indígena precisa e deve ter seu espaço natural para preservar suas fontes, mas também deve vencer seus problemas integrando-se ao sistema com representação por ela mesma. Nada de emprestar suas reivindicações a aproveitadores alheios a sua vida real. Não é uma questão para ser discutida em linhas particulares ou através de ofícios do governo. Os índios têm condições para isso e têm lideranças preparadas também. Contudo, para isso, eles deveriam promover uma união inédita com todas as lideranças, o que historicamente eles nunca aceitaram. Os debates nas escolas promovidos por alguns professores de história deveriam ser menos ideológicos e mais comprometidos com a realidade.

Um comentário:

  1. Esse foi um de seus melhores textos, concordo plenamente contigo: os povos indígenas foram tão contaminados e dizimados que não podem ser vistos como um só povo, mas em muitos casos como remanescentes de um clã dissolvido e que deve ser preservado, pois sua cultura é única desde seu modo de vida, religião, entre outros. Gostaria de como você ter tido de participar da prosa, parabéns pelo artigo.

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